Estava eu a dormir profundamente quando, do nada, ouvi um estrondo enorme. Meu Deus, o que foi isto?!... Terá sido o vento?... Uma explosão?... Um terramoto?...
Aflita, tento levantar-me e acender a luz, mas quê?!… Luz, nem vê-la!... Foi-se!… E agora?... Pego então no telemóvel, mas nada!... Lembrei-me de ir buscar uma vela, mas será que ainda havia alguma em casa?... A tatear as paredes, dirijo-me à gaveta habitual e nada outra vez!... O que vou eu fazer agora?...
Entretanto, lembro-me que talvez haja luz lá fora, mas eis que, subitamente, a tentar perscrutar a janela, atiro um grito ao ver uma sombra enorme e medonha. Só podia ser uma avantesma!...
Aflita, acabei por fugir de casa e, depois de correr durante uns largos minutos, que me pareceram horas, cheguei junto de um rio.
Tudo me pesava: as pernas, os pés, os braços e as costas. Sobretudo as costas. Só então me apercebo que levo um saco pesadíssimo. Teria sido a avantesma que entrara dentro dele e que eu transportara este tempo todo?... Estava eu a tentar entender o que me estava a acontecer quando vejo um brilho ao longe.
Corri em direção à luz e, em dada altura, tentei largar o saco, mas em vão. Apesar dos meus esforços, não consegui. Parecia fazer parte de mim.
Já bem perto do meu destino, vi uns pedregulhos. Galguei-os, tentando não cair. Infelizmente, as restantes pedras ficavam no meio da água e tive de voltar para trás. Não podia arriscar, pois não sabia nadar.
Desesperada, só pensava numa forma de chegar à outra margem a todo o custo. Ao cabo de algum tempo (não sei bem quanto), vi uma pequena ponte, mas ainda não era desta feita que chegaria à luz, porque, de repente, ressoou um riso enorme, gutural, aterrador!...
Petrificada, ouvi ainda uns sons estranhíssimos como que a saírem de umas goelas a saborearem algo de quente e delicioso. Seria café?...
Não sei nem quis saber, pois o riso medonho voltara. Só podia ser o monstro, que continuava a perseguir-me.
Voltei a fugir noite fora ou dentro, já nem sei. Só sei que ouvia as gargalhadas horripilantes atrás de mim. Seria a avantesma seguramente, mas nem me atrevia a virar-me, tentando apressar-me como que para engolir o caminho o mais depressa que podia.
Em dada altura, infelizmente, a minha correria foi interrompida abruptamente por algo estranho e macio, mas suficientemente pesado para que eu tropeçasse e me estatelasse redonda no chão. Afinal era um rolo de papel gigantesco empurrado pelo vento que começava a uivar.
Tentei levantar-me uma e outra vez, mas em vão. Agora também o vento, descendo na vertical, era meu inimigo e era como se o chão se agarrasse a mim, um chão áspero e negro. Sentia-me ainda mais pesada e via a ponte como que a afastar-se ao longe e o brilho a diluir-se na negrura da água e da noite.
Quando, após inúmeras tentativas, consegui erguer-me do alcatrão escuro que nem breu, vi de relance um pequeno objeto, a tentar esvoaçar no meio daquela ventania indomável. Parecia uma chave, uma chave minúscula e brilhante. Seria aquele um sinal do meu regresso a casa?... Seria a promessa de que tudo não passava de um pesadelo?...
Mas não havia tempo a perder com reflexões (a não ser que fosse para atrair um pouco a sorte ou a esperança embora já duvidasse muito da existência de uma e da outra). Por isso, pus-me, de novo, ao caminho e voltei a correr quanto pude. Contudo, seria impossível continuar àquele ritmo por muito mais tempo, de tão exausta que estava.
Em dado momento, dei por mim já só a andar, cada vez mais devagar, até que parei e pousei o corpo pesado e cansado no chão sujo da estrada.
De súbito, levantei a cabeça, olhei em redor e vi uma flor. Parecia-me a rosa do Principezinho, mas, afinal, era apenas a rosa que eu tinha colhido no jardim no dia anterior e que estava agora pousada ao meu lado num copo de água na minha mesa-de-cabeceira.
Mas… onde estava a estrada?!... e a ponte?!... e o rio?!… e a avantesma?!...
Não contei nada a ninguém. Seria o meu segredo. Ainda me chamariam alucinada, doida varrida, medricas…
Estava eu a ruminar esses pensamentos e a tentar adormecer quando ouço uma voz ecoar ao longe.
Hesitante e a medo, viro a cabeça e vejo o rio e a ponte também. E, para além da água, vejo o brilho de há pouco, um brilho intenso e cristalino. E só então percebo, ao perder o meu olhar naquela paisagem, que mais parecia uma miragem, um barco a recortar o horizonte. Era um barco imponente e aterrador, a vaguear num mar de sal translúcido e luminoso.
E dou por mim a vaguear num outro tempo, época de descobertas, galeões e piratas. E enquanto o meu pensamento viaja lá longe, a embarcação aproxima-se lentamente sem eu me dar conta.
E, subitamente, encontro-me cara a cara com uma figura informe e horrenda, monstro de outros tempos, a recordar-me a sua voz e presença.
Afinal, não tinha sonhado. Ali, à minha frente, estava mesmo a avantesma.
Uma resposta a “Uma sombra medonha”
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Li este texto surpreendente com alguma agitação interior e curiosidade. Esta avantesma fez- me transpirar.


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