Quando criança, Maria não pôde estudar, passava o dia cuidando da casa e de seus irmãos mais novos. Lavava, cozinhava, trocava fraldas, limpava o chão e aprendeu a remendar roupas como ninguém. A dureza da vida roubou-lhe muito. Tirou-lhe o que há de mais precioso: a despreocupação da infância e a liberdade de sonhar.
E assim seguia, dia após dia, repetindo as mesmas tarefas, acreditando que aquele era o destino que lhe cabia.
Sem tempo para entender o próprio corpo ou nomear seus desejos, Maria cresceu rápido demais. O vazio que sentia no peito, provocado pela falta de afeto, fê-la se entregar a promessas vazias, a carinhos maliciosos, a um homem que a aliciou quando ainda não sabia se defender do mundo. A gravidez veio como sentença e, no local que chamava “casa”, não teve o acolhimento que necessitava.
Os pais, que tanto usufruíam de seu silencioso trabalho, fecharam-lhe a porta, e Maria saiu com tudo o que tinha: a roupa que levara no corpo, três mudas guardadas numa sacola de supermercado e o medo que não cabia no peito.
O novo lar pouco diferia do antigo. Era uma construção pequena, com paredes cruas, erguida no quintal dos pais de seu esposo. Ali, Maria continuava a fazer o que sempre fizera: lavava, cozinhava, trocava fraldas, limpava o chão e remendava roupas como ninguém. O marido trabalhava com construções e, nos horários vagos, frequentava os bares da cidade.
Os anos passaram lentamente, como se cada um pesasse o dobro. Nesse percurso, Maria teve mais três filhos. Sua vida seguia assim, imutável, até que numa noite recebeu a notícia de que o marido, ao voltar bêbado para casa, na rua Raposo Tavares, se envolveu em um acidente e morreu.
Maria não chorou. Não vestiu luto por dentro. O que sentiu foi algo que não conhecia bem, talvez um alívio. Parecia que voltava a respirar depois de muito tempo submersa. Pela primeira vez, enfim, acreditou ter saboreado o gosto da vida.
Uma resposta a “Raposo Tavares”
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Quantas Marias….


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