Uma noite de luar, uma temperatura amena, um céu estrelado, e Ester.
Era uma mulher com uma feição angelical, por ter um sorriso meigo e que inspirava simpatia, mas também por ter uns olhos escuros e amendoados, que sobressaíam graças às pestanas reviradas, um cabelo negro com uma longa trança que lhe caía sobre a coluna, uns dedos grossos, que batiam sobre os braços da cadeira de madeira, já gasta pelo tempo, servindo-lhe de assento durante tantos e tantos anos enquanto ouvia as suas músicas preferidas, e umas pernas curtas e roliças, e que, por isso, lhe dava um ar de eclesiástica, vocação que Ester nunca tinha sentido. Era católica, por formação, e não praticante, por escolha. Talvez porque não sentisse vontade de agradecer pela vida ou talvez porque lhe tenham transmitido a fé de uma forma penosa, melancólica, triste e sombria, e para isso já lhe bastava existir.
Este seria o conjunto perfeito daquele idílico cenário que terminaria dentro de algumas horas, já que o tempo mudaria de quadrante e o orvalho da noite chamaria outros seres que tomariam o lugar dela, que, entretanto, se deitara sobre a cama, cobrindo-se até ao pescoço para sentir o aconchego do seu pequeno lar, onde o mundo cabia.
Enquanto se deliciava com o que a Natureza propiciava, pousou as suas delicadas mãos nos LPs que guardara desde a juventude e que resolvera catalogar naquele serão, sozinha, «na paz de Cristo», como ela, assim, caracterizava a sua solidão, e relembrando a terminologia que havia aprendido nos anos de catequese, doutrinamento escolhido por sua mãe, que, não faltando a uma missa de Domingo, entendia que a filha precisava de aprender os valores morais, cristãos e os preceitos religiosos, para sua orientação.
Escolheu um tema de um LP novo que ainda se encontrava empilhado noutra banca por ter sido comprado recentemente, e que, por falta de ânimo para o escutar, tinha colocado junto a tantos outros que havia adquirido nos últimos meses.
Interrogou-se sobre a vida, a sua, a dela, questionando-se se a tinha escolhido ou se a vida a tinha destinado assim: só!
O jardim da casa era a sua companhia. Depois de acordar, era lá que folheava o jornal matinal, colocado na caixa do correio pelo estafeta do matutino local, que o amassava, para o fazer entrar na pequena abertura do correio, que tinha sido pensada e construída para receber cartas e que, por isso, o obrigava a ter de fazer aquela expressão facial esquisita, contorcendo os lábios e abrindo a boca ao tentar empurrar o periódico, deitando a grande língua de fora, lembrando os garotos quando troçavam uns dos outros ao brincarem na rua, e quase se enraivecia quando tinha de enrugar algumas páginas para terminar a tarefa de o colocar por inteiro dentro da caixa, não fosse algum esperto levá-lo e ele perder o seu emprego, pelo que Ester tinha a repetida tarefa de as esticar, abrindo os seus volumosos cinco dedos em forma de leque para que o jornal lhe parecesse acabado de sair da tipografia.
A vida fora daquela casa vinha toda por ali. Lia-o do princípio ao fim, quase sem respirar, ansiosa pelas novidades que os jornalistas da terra relatavam, conforme a orientação política de quem comandava os destinos da região, e só depois se levantava da cadeira de balouço, que já tinha sido azul, mas que estava sem tinta de tanto se sentar nela, e após tomar o primeiro café do dia, e com os braços apoiados sobre a mesa de ferro que a tia lhe havia deixado em testamento, lia as notícias que mais lhe interessavam, com o pormenor que ela achava necessário, até chegar, novamente, à primeira página para ler com atenção o editorial, que tanto apreciava, por conter sempre uma notícia de interesse para a população local. Naquele dia, o diretor do jornal contava os diferendos sobre a requalificação do coreto da praceta central, dividindo opiniões na comunidade onde Ester residia.
Ao seu redor, os vasos de flores captavam a sua atenção. Eram os únicos seres vivos a quem manifestava afeto. Os seres da noite apareciam quando Ester dormia, e nem o estafeta lhe desejava «bom dia», porque começava a labuta, ainda, antes de o sol nascer.
Como era rotina nos seus serões, colocou a agulheta do seu antigo gira-discos sobre o prato de vinil e ouviu um dos seus temas preferidos, que fazia parte do LP que havia comprado há alguns dias, um hit de `80, de Bob Seger & The Silver Bullet Band. Começou a cantarolar, sem grandes dotes musicais, mas com alguma qualidade vocal, o tema The shame on the moon e depressa memorizou o refrão, oh blame it on midnight, oh shame on the moon, e talvez pelo estado emocional que a música propiciava, mais uma vez, indagou-se sobre a sua vida, sem família, nem amigos, e sem sequer um amor que a confortasse ao longo de todos aqueles dias. Havia que preenchê-la! — Mas como? — pensou Ester, em ansiedade por não conseguir inverter a tendência de solidão que caracterizava a sua vida. — Como poderia deixar de sentir ausências? — confrontou-se quase em pânico.
A música tinha terminado e o frio da noite, que seria longa, como todas as que ela passava, começava a sentir-se. Desligou da tomada a ficha do seu velho portátil e levou-o para uma mesa que estava na sala e que parecia ter sido feita de propósito para o arrumar. Desligou os interruptores e, ao fechar as luzes, na escuridão, pensou que o dia seguinte seria diferente, com mais luz, pelo menos, uma luz diferente daquela que a fazia acordar em cada dia.
Acordou cedo, aprontou-se rapidamente, sem grandes indumentárias, pois não era isso que importava no momento, dispensou a sua habitual leitura do jornal matinal, e, a pé, galgou as pedras das ruas da cidade, bastante irregulares, já que ela quase tropeçava — um tema suficiente para o editorial de um qualquer dia seguinte —, e entrou no edifício de onde nunca mais se desligaria e que lhe daria respostas a algumas das questões que a inquietava nos momentos de maior tristeza: «Quem és, de onde vens e para onde vais?»
Jamais tornaria a ser um elemento isolado no meio da sociedade, tão cheia de pessoas, mas com as quais Ester não tinha qualquer relação.
Com ar decidido, ainda teve tempo para mirar a arquitetura do edifício do século XVI. — Imponente! — pensou, ainda antes de se dirigir à funcionária. Deu alguns passos atrás e, entre a porta de entrada e o muro que ladeava o monumento, ergueu a cabeça e fixou os seus olhos em todos os detalhes daquela majestosa edificação e concluiu que seria ali que passaria muitos dos seus dias em consultas sobre os seus antepassados e contemporâneos e que haveria de encontrar as suas raízes e de sentir-se próxima das suas gentes.
Acercou-se da Dona Odete, a mais antiga funcionária do centro de pesquisa, e sem hesitação proferiu: «Todos somos pertença de um legado: a família. Só assim damos sentido à nossa existência». A Dona Odete sorriu-lhe, ainda que não entendesse a razão do desabafo, e delicadamente ofereceu-se para ajudá-la naquela que seria a sua primeira experiência na nova missão, rodeada de papéis e registos antigos, cheios de história. «Cada vida é uma história», disse-lhe, convicta, a funcionária, com ar de quem conhecia os antepassados de toda a gente. Ester, eufórica, observou as grandes janelas de onde entrava o sol que enchia de luz as mesas de madeira maciça e de cor escura, assim como as cadeiras da mesma cor, que ela arrastava com dificuldade por serem tão robustas, acabando por dar uma solenidade típica, algo que a agradava.
Poucos dias passados, virada de costas, e enquanto tentava colocar a mão sobre a cadeira para poder sentar-se confortavelmente, sentiu uma outra mão encostar-se a um dos seus dedos, ajudando-lhe na hercúlea tarefa de arrojar aquele pesado assento. Virou-se inquieta, tal a estranheza que sentiu no momento, e, por falta de hábito a estas situações, corou, enquanto fitava os olhos sobre quem nunca esperaria encontrar naquela tarde.
— Reconheço-o. Recordo o seu rosto, embora não consiga lembrar-me de onde! — disse Ester, num tom de voz grave, desvalorizando os sentimentos que lhe invadiam o corpo.
— Começo a minha rotina diária junto à sua caixa de correio — disse o estafeta, com um ligeiro sorriso tímido, embora convicto de que ela nem teria dado por isso —, e termino as tardes, aqui, nestas salas. Faço-o há muitos anos, desde que saí da instituição onde vivi as primeiras duas décadas de vida. Procuro a minha âncora. E, a…? — silenciou-se por alguns segundos, tentando encontrar um nome para chamá-la, mas não o conseguindo, perguntou-lhe num tom de voz baixo, ao que prontamente e sem sair do tom inicial, ela respondeu-lhe: «Ester, um nome que me foi dado em atenção a uma tia que não teve filhos e que me educou nos primeiros anos. A minha mãe não tinha condições para me sustentar. O meu pai trabalhava na pesca do bacalhau, por isso passava longos meses no mar.»
— E, a Ester…, a Ester…, o que faz neste edifício, no meio de tantas interrogações e contradições? — indagou-lhe, repetindo e reforçando o nome, mas aliviado por já ter conseguido o suficiente para não mais se sentir um estranho enquanto conversava com ela. Olhou para a Dona Odete, que acabara de ouvir Ester a apresentar-se, e levantou as sobrancelhas num sinal de alívio.
— «Uma pessoa sozinha não existe. Só se existe em relação» — respondeu, citando a frase que tinha ouvido numa entrevista num programa de radio, e que acabaria por impulsioná-la naquela véspera do dia em que resolveu levantar-se e optar por outros caminhos cujo destino diário não passaria pela cadeira de balouço «azul» —, por isso, estou neste Arquivo procurando o mundo que não tive. Poder acrescentar vida passada à presente! — disse-o quase sem capacidade para terminar a última sílaba. A sua voz grave sucumbiu à emoção e Ester revelou, em escassos segundos, a mulher que o estafeta queria conhecer, fazendo-lhe sentir um maior à-vontade para entrar em temas mais intimistas, embora com a distância que pretendia manter.
Perceberam que tinham um passado com muitas semelhanças! Continuariam a explorar a sintonia que os unia, dialogando sobretudo sobre eles próprios e sobre a ausência de todos os outros!
— Ester, como faz para suprir a falta de relações humanas? — interrogou-se o estafeta, colocando as duas mãos nos respetivos bolsos das calças, curtas, realçando-lhe a figura de ardina, ainda que se tenha contentado em ser estafeta do principal periódico.
— Leio e ouço música. As palavras escritas nos livros e os sons das notas musicais povoam-me com imagens, mas também com seres, que se tornam familiares quando repito a leitura e a música.
A D. Odete, que, entretanto, entrara na Sala de Leitura Geral, pediu-lhes silêncio. Forneceu-lhes as regras em papel. Desculparam-se, sem, contudo, se terem apercebido da quantidade de pessoas que tinham entrado naquele espaço, e ocupado as cercas de cem mesas outrora vazias. Decidiram pousar as folhas de papel brancas e os lápis de carvão sobre as respetivas mesas, e saltitando sobre o soalho de madeira antiga para menorizar o efeito sonoro dos sapatos de couro e dos tacões das botas, dirigiram-se à sala anexa, a Sala da Reprografia, onde puderam continuar a descoberta da história das suas vidas.
Passados alguns meses, Ester dominava o processo de recolha de dados de tal forma que já reunia uma série de nomes dos seus antepassados, registos de nascimentos e de matrimónios, preenchendo cada espaço, anteriormente vazio, da sua árvore da vida, e entretanto, enriquecida com a pessoa, a única, que durante tantos anos lhe tinha ajudado a suportar a solidão diária, amaciada sempre que lia o jornal que Víctor colocava na caixa de correio da sua casa, na mais íngreme rua da pacata localidade onde Ester residia.
8 respostas a “Raízes”
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Um conto que nos faz pensar de onde vimos.
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Obrigada, pelo comentário!
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Um conto sobre um tema intemporal e, infelizmente, cada vez mais atual. Também gostei da solução encontrada pela personagem para tentar preencher a sua solidão.
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Obrigada, Celeste Ferreira.
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Gosto deste conto..
Raízes que agarram cada ser humano à terra e à sua própria origem.-

Obrigada, Dulce Pitarma.
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Obrigada!
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Sem dúvida, Dulce Pitarma!
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