Gosto de olhar o mar e sentir o balouçar como um gesto repetido e paciente. E adoro ouvir o som das ondas que se enrolam na areia, numa dança constante, sem fim, enlaçados num amor infinito de felicidade, o que me extrapola à calma e à ausência do mundo em que vivemos.
Caminhar à beira-mar conduz-me à infância: a areia a escaldar nos pés e a água que me envolve e aconchega. As conchas pequeninas, ainda preservadas nas caixinhas de fósforos, apanhadas, por aí, em tempos distantes, transporta-me a momentos incríveis; como se trouxesse comigo um pouco do mar, da maresia, das emoções e recordações que revolvo com prazer e saudade.
Acompanho o mar e a areia, sem que eles deem por mim, e não os perturbando, enquanto rodopiam sobre si mesmo, deixando no seu rasto uma beleza estonteante na areia, que aguarda imperturbavelmente que o mar volte um pouco mais tarde.
Porque ali tudo é efémero.
E, nessa ausência do mar, toda a beleza, criada pela dança harmoniosa, é interrompida pelas pegadas de outros tantos que por ali vão vagueando.
As aves, que esvoaçam sobre o carrocel das ondas, pedem-lhes alimento e lhes agradecem beijando-as demoradamente. Saciadas, vêm descansar nas areias tranquilas acompanhando a cadência do mar.
Os caranguejos, numa corrida desenfreada, surgem de algures, para de seguida, desaparecerem na areia molhada.
Quem por ali caminha sente a alegria vibrante dos companheiros caninos, em pura galhofa com o vaivém eterno das ondas. E as crianças brincam, jogam à bola, fazem castelos na areia, sonham.
Mas também encontramos tudo o que o mar devolve, numa tentativa de limpar-se e proteger os seres que nela habitam. Há um pedaço de rede e uma pequena boia de pesca, já meio desfeita. Vê-se mais um fragmento de madeira enegrecida, talvez pelo tempo em que andou à deriva. Há também troncos de árvores que, seja pelos incêndios ou pela má gestão humana, percorreram os rios e acabaram arrastados para o mar.
As algas que deram à costa, empurradas pelas ondas, pintam a praia com cores fortes. Evitamos pisá-las, sem saber se ainda estão vivas ou se regressarão ao mar. Há também as cartilagens das lulas, que apanhamos com carinho para os nossos periquitos porque, segundo dizem, fazem-lhes bem por terem cálcio. Restam uma pá infantil de brincar e aquela garrafa de plástico esquecida, quem sabe, e quero mesmo acreditar, por inadvertência.
Sobram ainda as pedrinhas de vários feitios e cores, bem moldadas pelo mar. Brilham enquanto estão molhadas, o que nos faz acreditar que são ofertas preciosas às areias da praia, quando as ondas se enrolam demoradamente, e o mar sussurra à areia segredos que ninguém conhece.
Sim, admito que a natureza é bela e que devemos cuidar dela. Mas, quando avistamos as rochas abraçadas pelo mar, sentimos, através do seu balanço, que o som desta dança é diferente. Com força e leveza, tal como uma acrobata, ele eleva as águas ao alto, prazerosas pelo desejo de subir cada vez mais.
Saltitamos cuidadosamente por entre as irregularidades da costa, que nos levam pelo mar adentro, onde sentimos o vigor desta dança a respingar-nos com pequenas gotículas: como lágrimas salgadas nos olhos perdidos no horizonte. Nos pequenos lagos circundados, encontramos os peixinhos que ali ficaram presos e um pequeno caranguejo a espreitar num dos recantos. Ficamos imóveis, olho no olho, sabendo que ao menor movimento ele fugirá. E fugiu…
O tempo corre ao seu próprio ritmo. Amanhã tudo estará diferente naquele lugar onde tudo é efémero. Mudarão a areia, as conchinhas e as pedrinhas, as pegadas e as coisas que por ali jazem, os peixinhos e os caranguejos. Mas o mar, a areia e as rochas continuarão as suas danças num balouçar firme e persistente. “Porque o mar transforma a paisagem através de um gesto repetido e paciente.”
O autor inspirou-se na exposição “Erosões”, da artista ceramista Marta Botelho.


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