Avançava contra o tempo, transformado num verdadeiro temporal, e contra o relógio que o obrigava a esticar o passo a cada momento. A noite já ia longa quando o Zé Vítor se dirigiu à sala da avó, numa casa rodeada de um jardim magnífico e bem cuidado, com um lago de forma oval do qual não se vislumbrava o fundo por estar coberto de nenúfares e muitas flores. A casa dormia um sono profundo, pelo que tinha de ter muito cuidado ao subir os degraus passo a passo, não fosse aparecer-lhe um bicharoco qualquer para o desequilibrar. Parou na sala a observar o candeeiro antigo, de gotas translúcidas de vidro, pendurado no teto e agora cheio de pó e de saudade. Deambulou pelas salas, abrindo portas e portadas que lhe apertavam o coração. Quantos anos tinham passado? Já nem sabia ao certo. Mas acudiam-lhe à memória alguns momentos inesquecíveis, algumas brincadeiras antigas: — Minha mãe, dá licença? — perguntava. — Quantos passos? — Quatro, à gigante — respondia a Matilde. Nesse momento, esvoaçou-lhe um sorriso triste pela face. Finalmente, estava em paz e sossego; ali, sentia-se aconchegado pelas recordações felizes da sua infância. Mas a zanga despropositada da Goreti deixara-o de rastos. A Goreti fervia em pouca água, mas ele, no fundo, não se sentia culpado. E escarafunchava na consciência: «Ora bem, eu atirei com a garrafa à gata, sim, mas num impulso involuntário. Palavra, que só tive consciência disso depois de a ver saltaricar como doida pelo empedrado. Eu, que tantas vezes lhe trouxe do hipermercado uns biscoitos, por acaso fora do prazo de validade, é certo, mas ainda estaladiços. Acho que não merecia aquilo da Goreti». Enxugou uma lágrima teimosa com as costas da mão e foi até à janela. Magoado, cofiava o bigode e olhava perdido os pinheiros a oscilarem ao vento, varridos pelas bátegas que se estatelavam sobre os armazéns abandonados. O Zé Vítor achava que a irritação da mulher era um pretexto para se afastar dele, e não iria descansar enquanto não descobrisse a verdadeira razão do arrufo. Com este desejo trancado nos gorgomilos, o seu olhar sondava o espaço demoradamente até que, ao cabo de algum tempo, reparou numa etiqueta com umas letras a verde. Os olhos cresceram ao ver qualquer coisa que negrejava debaixo da cadeira de pernas torneadas, da avó. Sentiu um estremecimento leve. Nunca fora muito atreito a medos de almas penadas, mas, de repente, passou-lhe pela cabeça que na vila se dizia que, em certas noites de tempestade, vagueava o espírito de D. Beatriz de Aguiar, a mulher do senhor que um dia mandou construir a casa, e que nas madrugadas nebulosas passeava por entre os canteiros. Descreviam-na como uma figura diáfana, que deslizava deixando uma réstia de luz atrás de si. Aproximou-se cauteloso da cadeira. Ouvia agora um ronronar suave, intervalado por um retinir breve e roufenho. Num quebranto, deparou-se então com dois olhos fulgurantes, que pareciam fazer refulgir as letras verdes da etiqueta. Foi percorrido por um arrepio traiçoeiro na espinha, e imaginou coisas. Resistiu. Arriscou a aproximar-se mais, hesitando entre o medo e o brio. Na etiqueta, agora bem visível, leu a palavra «Mimi»; afinal, a placa que a gata da dona Idalina trazia sempre ao pescoço, juntamente com um guizo. Só então exalou um suspiro de alívio. E ficou descansadíssimo. Afastada a presença etérea da D. Beatriz de Aguiar, já não imaginava coisas: nem uma brisa repentina, nem um roçagar de saias, nem sequer ténues sorrisos. Quis esquecer-se por momentos do despautério absurdo da Goreti. Ela que lhe esperasse pela volta. Pela cabeça do Zé Vítor voava agora a dúvida de como e porquê teria ido ali parar a Mimi, o que teria levado a gata da dona Idalina a escapulir-se para debaixo da cadeira, naquela sala tão escura, naquela noite tão tempestuosa. Não sabia bem o que fazer. Porém, notou intrigado que qualquer coisa estranha esfervilhava a espaços sob a cadeira, algo que ele, por mais que apurasse o ouvido, não conseguia identificar. Enxugou melhor os olhos, abriu-os bem, e aproximou-se um pouco mais, procurando não espantar a gata e evitar que ela se pusesse na alheta. E foi como se assistisse a um milagre: de cabeça à banda, a Mimi raspava as unhas no sobrado, como se lhes puxasse o lustro, enquanto fazia rolar, com pertinácia divertida, o olho de vidro que naquela tarde havia escorregado, devagar, para a sarjeta. Carlos F. Costa Celeste Ferreira Isabel Curado Isabel Simões M. Dulce Pitarma Manuel Ferreira da Costa


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