Odeio a escrita

Na taberna Pata de Coelho, o lume nunca queimava como deveria ser. Ardia como se tivesse dúvidas de existir. Dizem que a taberna fora construída num cruzamento amaldiçoado, mas a lenda não foi confirmada.
Ali, Elianor de Vesk, estudiosa da escrita, passava as noites. Julgava dominar as palavras. Não por as praticar, mas por as ter dissecado até ao osso. Lera tratados, manuais antigos, compêndios sobre a estrutura narrativa, o ritmo, a metáfora. Sabia nomear todos os mecanismos. Sabia desmontá-los. Mas, nunca escrevia. Talvez porque escrever implique falhar.
Sentava-se sempre na mesma mesa, junto à parede, a norte, perto da lareira, e de costas para o balcão. Naquela noite, o empregado de mesa era Karut, um velho e pequeno goblin, com um olho permanentemente semicerrado, orelhas rasgadas e um sorriso casmurro. Alimentava uma obsessão: contar histórias a quem estivesse disposto a escutar.
Eleanor odiava-as, pois sabia que a maioria era incoerente e exagerada: "As histórias não se contam assim", murmurou ela, "falta-lhes estrutura. Falta-lhes intenção." Karut, apesar do barulho da taberna, conseguiu ouvir. Parou e virou-se para Elianor:
— Intenção? Diz a humana que não escreve uma frase. E porquê? Por medo?
— Medo? — Elianor soltou um riso seco. — Estudo a escrita há anos; não há nada nela que me escape.
— Ah! — O goblin bateu com a mão na mesa. — Então sabes tudo.
— Sei. Sei reconhecer a tua mediocridade.
O ar da taberna mudou; de repente, o silêncio. Apenas se ouvia o crepitar do lume.
Sobre Elianor caíra uma pressão invisível, obrigando-a a pousar as mãos na mesa.
Uma voz falou. Não vinha de cima. Nem de parte alguma ao seu redor. Ecoava apenas na mente de Elianor:
— Se sabes, escreve! — ela foi incapaz de responder; a língua bloqueou. — A teoria sem ato é vaidade! — disse-lhe a voz invisível.
Diante dela, na mesa, surgira um pergaminho em branco e uma pena negra a pingar tinta:
— Agora escreve ou perdes a tua voz.
As mãos de Elianor tremeram ao pegar na pena preta. A folha parecia um abismo. Num primeiro momento, nenhuma palavra brotou.
Karut aproximou-se de Elianor e pousou um dedo verde-sujo na margem do pergaminho.
— Escreve mal — murmurou. — Mas escreve com verdade.
Ela olhou para o goblin, a criatura que contava histórias sem intenção. A primeira palavra caiu na página como uma pedra sobre um dedo do pé. Depois outra. E outra.
A pressão desapareceu. O lume reacendeu-se. O ruído regressou à taberna Pata de Coelho.
Elianor respirava com dificuldade, mas o pergaminho estava cheio. Imperfeito. Sem estrutura, sem intenção. Cheio de falhas.
Karut, olhou para o pergaminho. Demorou uns dez minutos a ler o que Elianor escrevera.
— Não está mau para uma primeira escrita. Lembra-te, Elianor, de que a palavra guardada apodrece.
Avatar de Marco D'Almeida

Uma resposta a “Odeio a escrita”

  1. Avatar de Maria Simão
    Maria Simão

    Um conto interessante.
    Um dia irei contá-lo para quem o queira ouvir.
    Obrigada

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