O Mar Noturno

“Ó DA BARCA!” — grita o barqueiro, com voz sonante, na proa do barco, que se aproxima cautelosamente da margem para atracar no porto, onde os carregadores — que o ajudariam a transportar o sal que trazia diretamente das salinas para depois ser levado para o outro lado do oceano — o esperam.
Transferida a carga, pode finalmente ter um momento de pausa. Sobe o topo da montanha, que ladeia o porto, e observa o horizonte. O céu cinzento de chumbo abate-se sobre a vastidão da floresta.
Ao fundo, serpenteia o rio, que o abraçara na viagem, como se esbracejasse no vácuo, desde o princípio dos séculos. O homem solta gritos ásperos que fazem estalar a voz na lonjura, escuta o retorno do seu eco como uma criança que presencia um milagre. Respira fundo e ergue os olhos ao firmamento. Olha para o mar imenso e sente que a natureza o aconchega, pela sua incontestável beleza: o oceano é o sal da sua vida.
Finalmente, aproxima-se a hora da partida e o barqueiro prepara-se para a longa viagem. Vai ao convés e pega num saco de sal. Ao lado, ouve a voz rouca do carregador: «Ainda bem que a escravatura já terminou e estas viagens já não se fazem em barcos a remos», suspira, entre palavras sobre escravidão, à qual os antepassados foram sujeitos, e, antes que seja visto, agarra noutro saco de sal: «Este já cá canta!»
O navio parte. O som estridente do apito sobrepõe-se ao do barqueiro: «Ó da barca!»
Os dias longos, no mar, cortam o tempo na labuta dos marinheiros, enquanto o navio desliza lentamente sobre a espuma do mar, empurrado pelo vento forte.
Finalmente, enquanto o sol se levanta, no horizonte, afugentando a noite escura, o barqueiro equilibra-se na proa, de mão em pala sobre a testa, olhando para o horizonte, enquanto os salpicos da água salgada lhe temperam os lábios.
Em alta voz, exclama: Terra!

Carlos F. Costa
M. Dulce Pitarma
Manuel F. Costa
Miguel S. Pereira
Avatar de M. Dulce Pitarma

Uma resposta a “O Mar Noturno”

  1. Avatar de Isabel Curado
    Isabel Curado

    Que lindo ficou este texto a quatro mãos! Parece que estou presente a ajudar com os sacos de sal. A mestria da Dulce uniu com fios invisíveis quatro vozes bem distintas das nossas aulas. Obrigada por este retrato vívido perfeito. Parabéns!

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *