A poucas horas da celebração do matrimónio, Adolph, que precisava preparar sem o mínimo de erro a noite de núpcias, foi à gaveta da secretária remexer os papéis presos nas dezenas de canetas sem tinta que guardava por apego, adiando para um tempo qualquer a tarefa de os arrumar.
Contactou o gerente da estalagem — um edifício do século XVII, junto ao Tamisa — e relembrou-lhe o combinado alguns dias antes, reforçando a importância de colocarem na suite nupcial o disco de vinil com a melodia que o aproximara daquela que viria a ser a sua nova esposa. A música haveria de soar quando Emilly entrasse no aposento que melhor se lhe adequava; ela, trajada com um vestido branco, comprido e rodado, que se arrastaria pelo empedrado acinzentado da entrada. O traje, ornamentado com um bordado floral, também ele branco, mostraria a pele jovem e sedosa — tal como Adolph sempre a imaginara —, enquanto esconderia os braços delicados em luvas acetinadas que lhe ultrapassariam o cotovelo. Nos pés, os sapatos de salto alto espreitariam sob o vestido sempre que Emilly o segurasse para não tropeçar. Iniciar-se-ia assim a primeira noite de núpcias com Adolph, um jovem recém-licenciado de classe social inferior à dela; a pessoa séria e com a postura que ela tanto apreciava encontrar num homem. E, esperá-los-ia um disco de vinil escuro, sobre o qual a agulha giraria, impedindo-os de pensar para além do desejo.
Uma dúvida, porém, estimulava-lhe os receios, fazendo-a estremecer e mergulhar em perguntas até então sem resposta. Nunca tinha sentido o calor de Adolph. Deitar-se-ia, naquela noite, junto dele, e sentir-lhe-ia pela primeira vez o odor que emanaria do seu corpo; um corpo de ombros estreitos e quadril largo, que nunca fora dela.
Emilly, educada por uma família conservadora, com a qual discordava, possuía um aspeto físico que a diferenciava da jovialidade de Adolph. Era uma mulher madura, o que se refletia na própria aparência. Conhecera Adolph — a pessoa que o destino lhe reservara para amar — num passeio de barco entre Westminster e Greenwich. O grupo de ingleses em convívio partilhava o vínculo profissional a uma multinacional, embora trabalhassem em filiais distintas. Sem que antes se tivessem cruzado, eram colegas de profissão; e foi naquele ambiente fluvial, enquanto o cocktail decorria ao pôr do sol, que Adolph decidiu agir. Apressou-se em se livrar do copo que lhe dificultava a iniciativa de convidar Emilly para dançar ao som da banda sonora do recém-estreado Love Story, na voz de Andy Williams. Pousou o flute de champanhe Veuve Clicquot Brut, ainda por beber, na bandeja de um empregado que passava entre a aglomeração de colegas. Precisava de o fazer antes que a música terminasse e se desvanecesse a coragem que o empurrava a quebrar os obstáculos habituais, aqueles que o privavam de uma relação a dois.
Adolph, embora pertencesse a uma família trabalhista, defendia a formação conservadora, ao estilo britânico tradicionalista. Iniciou a viagem com Emilly a seu lado. Estreava o Aston Martin DB5 adquirido com o dinheiro que ganhara ao longo do primeiro ano de trabalho como arquiteto. Conduzia-o com a firmeza de quem dava valor às libras gastas na aquisição do carro em segunda mão, comprado a um colega mais velho e financeiramente mais estável. Embora ela estivesse centrada na noite que os esperava, falaram sobretudo na festa, nos convidados e na vida que deixavam para trás:
— O matrimónio implica ruturas pessoais? — questionou Emilly, pensando na casa e na família de quem sentia ter-se despedido para sempre.
— É mais uma etapa pela qual passamos. Não mais do que isso! — respondeu Adolph sem hesitação.
«A partir de hoje, será que farei parte de uma nova história?», pensava enquanto abria a mala que segurava na mão direita. Dela retirava o papel com o endereço que confirmaria a chegada à localidade da hospedagem, onde terminariam o dia; facto que se tornava evidente ao aperceberem-se de que haviam entrado num bosque — onde a estalagem se inseria — repleto de árvores e flores das mais variadas nuances. Os jardins cuidados circundavam o edifício, ostentando canteiros e um arvoredo a perder-se no infinito. Junto ao rio, a vegetação tornava-se luxuriante e densa, harmonizando-se com a arquitetura e deixando-os impávidos perante tanta beleza.
Permaneceram algum tempo no interior do carro, antes de se decidirem pelo check-in, permitindo-se observar as esculturas que ladeavam a estrada de acesso à entrada principal. Ali, impecavelmente trajado com um fato azul e colete sobre a camisa branca, o concierge abriu-lhes a porta. Através do vidro, escrupulosamente transparente, foram recebidos com o zelo de quem prestaria todo o atendimento necessário para que se sentissem bem durante a estadia.
Empenhado nas funções e reforçando-as em ocasiões especiais, Thomas Robert — o Maître de Maison da Estalagem — ofereceu-lhes, à chegada, um ramo de flores. O gesto causou satisfação e boa impressão a Emilly, que apreciava o cheiro que exalavam. Agradeceu-lhe com um sorriso, manifestando, contudo, o interesse em conhecer a suite onde o casal iria jantar e ter a primeira noite de núpcias. O corredor de acesso mantinha a decoração faustosa do edifício. Optaram pelas escadas para apreciar os grandes quadros de pintura, emoldurados em madeira dourada, que cobriam as paredes de um tom carmesim. Em cada patamar, os corrimãos esculpidos sustentavam esculturas de madeira na mesma tonalidade, enquanto os esplêndidos tapetes persas silenciavam o ranger da estrutura antiga que ainda permanecia na estalagem.
O quarto situava-se ao fundo do corredor, talvez pela área magnífica, ou para não serem incomodados por outros hóspedes. Emilly admirava os pormenores da primorosa decoração, à medida que olhava para Adolph, transmitindo-lhe a urgência de chegarem ao refúgio; precisava de se libertar dos sapatos de salto alto que lhe magoavam os pés desde o altar. Ao abrirem a porta, a sumptuosidade do interior surpreendeu-a, aformoseando alguns dos momentos que se seguiriam. Ahhh! Ufa! — A jovem mulher, recém-casada, conseguia finalmente confortar-se, esticando os dedos dos pés, e rejuvenescer-se para iniciar o jantar na varanda envidraçada, de onde, se avistava o jardim, as cascatas, o bosque e, acima de tudo, o silêncio da noite. O Maître de Maison retirou-se após se abeirar do gira-discos e dar início à música pedida por Adolph. Enquanto os versos soavam no espaço, Emilly assimilava-os num fôlego silencioso, pensando em como a relação de ambos poderia caber na letra simples daquela canção. Pegou nas mãos dele, abraçou-o e sussurrou-lhe:
— Where do I begin to tell the story of how great a love can be? The sweet love story that is older than the sea. Where do I start? 1
O jantar foi servido pelos empregados mais experientes do hotel para que aquele intervalo de tempo entre a chegada e a madrugada fosse ímpar. Com o boton crachá em latão fixo na lapela, identificando o nome do sommelier, Anthony Brown entrou na sala de jantar privada e aconselhou o casal na escolha do vinho para a noite mais especial de ambas as vidas; sugestão que Adolph e Emilly prontamente aceitaram. Seguiu-se a escolha dos pratos, sugeridos pelo empregado de mesa, que se ajeitava a cada instante para que a postura transmitisse o máximo profissionalismo, antecedendo a ocasião em que finalmente eles voltariam a estar sós. Inevitavelmente, sentiram vontade de conversar intimamente enquanto trocavam gestos de carinho, evidenciando a avidez pela descoberta do que se seguiria.
Saboreando em pequenos pedaços o tenderloin steak que, pela disposição no prato de louça inglesa, já aguçava o apetite do casal exausto pelo dia mais longo de que havia memória, Emilly — habituada a iniciar os diálogos — pousou com elegância os talheres dourados e sentiu vontade de lhe transmitir o quanto o amava:
— How long does it last? Can love be measured by the hours in a day? I have no answers now but this much I can say: I know I'll need [him] till the stars all burn away. And [he]'ll be there 2.
Adolph, que também terminara o prato principal, levantou-se. Sem que qualquer palavra respondesse às perguntas de Emilly, afastou-se da mesa e pegou no telefone na sala de estar. Agradeceu o serviço e pediu que o jantar fosse dado por encerrado, ficando a sobremesa por servir até à manhã seguinte.
Voltou a sentar-se. Escolheu um cadeirão individual ao lado da cama, longe da luz das velas da mesa. Cruzou as pernas e pressionou o vinco das calças com uma atenção excessiva. Fixou os olhos nos desenhos repetitivos do tapete. O silêncio instalou-se, após os empregados fecharem a porta de acesso ao corredor.
Emilly deixou o olhar cair sobre a mesa vazia.
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