Margem do Tejo. Outrora, um carreiro, terrulento e orvalhado, que percorria a capital, e onde houve acontecimentos que marcaram a história, mas, também, eventos banais, mundanos: um passeio de barco, a lavagem da roupa nos pedregulhos negros e lisos que coabitavam as margens com os peixes, as rãs e os insetos.
Todas as semanas, um Moleiro atarracado atravessava a margem sul do rio para ir comprar óleo ao mercado da terra e garantir que as máquinas do moinho não emperrassem, e se estragasse a mó e a qualidade da farinha, que ele vendia nas estradas nacionais, ao fim de semana. Era às terças-feiras, com o dia a definhar no postigo ou a invadir a pequena casa, que o Moleiro fazia o mesmo caminho para comprar aquela substância líquida e gordurosa; olhava, apenas, para o que lhe interessava: os pescadores dentro dos velhos barcos de madeira, atracados na margem, a conversar; o tronco de um castanheiro deitado no chão, na berma da estrada, oco e com um cheiro pungente a musgo forte — o suficiente para ser reconhecido como um marco —; e o Cão, com um olho azul e com o pelo castanho, áspero e molhado, que nada e corre atrás de pequenos roedores e aves. Apesar de só ver com um olho, desarmava qualquer tristeza: a língua, solta e recortada, como uma folha de azevinho, pendia com uma vivacidade única, quase como se esculpisse no vazio a euforia do momento. Sempre que via o jovem Moleiro, no regresso, lambia a farinha agarrada às roupas velhas. Apesar de visivelmente incomodado, não afastava o animal, umas vezes, por pena, outras, por simpatia, deixando-se acompanhar durante o curto espaço em que atravessava os terrenos da ordem imperial canídea. Na fronteira, despediam-se com cordialidade e cada um seguia em sentidos opostos.
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Para o trabalhador do moinho, a última semana de agosto lembrava-lhe o outono que se aproximava. Junto aos muros de musgo, não viu o canino. Preocupado, espreitara entre umas árvores e avistara o rafeiro esguio a deslizar lentamente sobre a terra morna destes últimos dias de verão. O Moleiro preocupara-se: achara-o calmo; a agitação que, até então, o animava, cedeu a uma serenidade profunda, a um espírito sagaz e a umas lambidelas excessivas no casaco de algodão que levava no antebraço com as mangas arregaçadas. Reparara na língua do Cão, que estava escura e na folha de uma hera roxa, presa entre os dentes e balançando enquanto se arrastava, mas por sentir-se cansado, com o suor a escorrer-lhe pelos olhos, acabara por não ligar. Acariciou-lhe as orelhas e pressionou-lhe o focinho com a palma da mão, continuando o caminho até ao mercado.
No segundo dia da primeira semana do mês seguinte, não se cruzara com o Cão. Nem na semana seguinte, nem na terceira, nem na última semana de setembro. No início do mês de outubro, o Moleiro, já suficientemente preocupado com a anormalidade da situação, resolvera ir à procura do patudo até o encontrar. Perguntou aos pescadores locais, aos viajantes e até aos transeuntes locais: «Bom dia! Sempre que passei por aqui encontrava um Cão, com o pelo castanho e cego de um olho. O outro era azul. Viram-no por estes dias?», mas ninguém o ajudou. Ninguém sabia onde o animal estava; há quem nunca o tivesse visto! Aproximou-se a noite, e o Moleiro resignara-se a voltar para o moinho. Quase a chegar, sentiu um odor estranho no nariz fino e arrebitado: um cheiro áspero. De súbito, um arrepio gélido amedrontou-o. Uns metros à frente, pareceu-lhe ver o Cão no tronco de um castanheiro musgado, mas, como estava demasiado longe, vacilou se seria o canino ou se o cheiro vinha da margem do rio, pois não lhe era habitual andar nestes espaços ventosos perto do anoitecer. Apressou-se a verificar a origem do cheiro pestilento. Entre as poças lamacentas e o coaxar das rãs assustadas à sua passagem, aprofundou a curiosidade do mistério. No final do trilho, no local mais inóspito e selvagem das redondezas, ele suspendeu de imediato a marcha ao ver o canino: o Cão encontrava-se de barriga para o ar, repleto de moscas e insetos a rodeá-lo, e rãs e peixes a circundar a periferia do corpo repousado. A palidez da tez contrastava com o casaco de fim de estação, em tom escuro: «Não!!! Não pode ser! `Tá morto! Quem foi o malvado que lhe fez isto?» Ao olhar o animal, de olho azulado murcho, reparou que o outro fora comido pela fauna local. «Só ele me amava.», sussurrou, deixando-se cair de joelhos ao lado do companheiro de estrada.
A saída do sapal fora demorada. A chegada a casa ainda mais. O silêncio angustiante invadiu-lhe o quarto: o único som era o da roupa a sair-lhe do corpo e o do pijama a passar-lhe pelos cabelos. A cama de palha e a colcha remendada confortavam-no: o cheiro das folhas secas acalmava-o e a manta de retalhos abraçava-o. Mas, a imagem do Cão com a língua arroxeada persistia. Revirou-se na cama com calafrios e suores, durante toda a noite, incapaz de adormecer.
No raiar do dia, sacudiu a colcha pesada, atirou-a para uma cadeira, e vestiu-se com as mesmas roupas do dia anterior, calçou as luvas de trabalho rotas — com que trabalhava frequentemente no moinho —, antes de comer um pedaço de queijo e morcela de aromas intensos, guardou o pequeno canivete novo e brilhante, e foi ao barracão quadrangular de madeira antigo, situado nas traseiras do lar. Após abrir a bolorenta porta negra do depósito, retirou um tapete dourado acastanhado com costuras desfiadas e uma pá de jardim pequena e ferrugenta que arrumara no fundo do armazém, há anos. Colocou os utensílios no carrinho de mão guinchante que estava nas traseiras, foi novamente ao moinho para recolher um saco de farinha preparado para circulação, colocou-o sobre o veículo de uma roda, dois braços e uma caixa para carga, e seguiu para o terreno plano, alagadiço e salobro, onde despejou todo o material no chão e estendeu o tapete. Os cheiros das águas emanavam um odor repelente. Mesmo assim, ajoelhou-se na água lamacenta e acolheu o Cão nos braços, pousando-o sobre a peça tecida e encorpada — com delicadeza —, ignorando o cheiro e o desconforto que lhe causava pegar num animal morto. Enrolou-o no tapete e meteu-o no carrinho, cuidadosamente. Retomou o percurso que, tantas vezes, fizera. Junto ao muro de musgo, retirou a pá e começou a cavar muito devagar, até o sepultar, a meio da manhã. Abraçou-se ao tapete fedorento, com o mesmo zelo que se tem com um recém-nascido. Cobriu com a terra a cavidade, pá a pá. O movimento lânguido da passagem da terra fez com que se recordasse de quando o observava a escavar o solo aluvial para repousar nos dias tórridos de verão: «Como gostava de ter a tua energia para terminar isto a teu gosto», e afastou-se uns passos. Nesta sepultura sem nome, o jovem não proferiu uma única palavra elogiosa ao seu amigo patudo: o suor frio nas mãos e o estremecimento súbito das pálpebras deixaram-lhe inquieto: «Novamente, só.»
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Plack, um som metalizado bateu no chão terroso. Em sobressalto, correu para o carrinho, tombado ao lado da farinha. Com os ânimos mais pousados, o Moleiro olhou para a embalagem; num ápice, pegou-a, e com o canivete que estava no bolso das calças gastas, rasgou-a, abrindo um buraco na ponta do pesponto, deixando sair pó até à campa do Cão. Aliviado por, ainda, haver conteúdo, despejou o que restava sobre o amigo, e sobre os pés, enquanto alguma esvoaçava ao vento. Inclinou-se sobre a sepultura, pela última vez, por um breve momento.
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O local encontra-se modernizado. O caminho de terra foi substituído pelo alcatrão citadino. Uma passagem de nível deu lugar ao castanheiro caído1. O porto antigo dos pescadores é um clube privado de iates para a elite. Até o moinho cedeu aos tempos modernos e converteu-se numa fábrica de sapatos, agora abandonada. Tudo mudou. Tudo, exceto o sapal, que ainda se mantém selvagem, e o túmulo do fiel amigo, agora transformado num miradouro para as pessoas observarem a cidade e a beleza das águas fluviais que continuam a percorrer a região.
— É onde nós estamos agora, filho, neste preciso momento.
— Então, pai, é por isso que as pessoas têm o hábito de vir aqui passear com os cães? E de pedirem longos anos aos seus animais de estimação?
— Não sei. Talvez seja. Eu já vinha aqui na tua idade com o meu cão e já se fazia isto. É o que diz a lenda. Acho-a uma história demasiado bonita para não ser verdade. Espero que assim o seja. Agora levanta-te, temos de ir.
— Sim, papá.
Pai e filho levantam-se do banco de madeira brilhante e dirigem-se ao carro. Antes de entrar, o rapaz grita em direção ao miradouro:
— Tu também, ó! Despacha-te, vamos. Dou-te uma guloseima quando chegarmos a casa.
Do fundo do mirante, um cão grande preto — deitado sobre as patas e de cabeça caída —, agita as orelhas e levanta-se ao ouvir a voz do dono. Olha, pela última vez, por um breve momento, para a vista do horizonte, e corre em passo acelerado para o carro dos donos.
- A queda de castanheiros é frequentemente causada por doenças radiculares como a Tinta (Phytophthora cinnamomi), que apodrece as raízes, ou pelo Cancro do castanheiro, enfraquecendo a estrutura da árvore. O mau tempo e o estado fitossanitário fraco levam à queda de exemplares, especialmente no outono. ↩︎


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