A manhã rompeu tranquila e soalheira. Era Verão e o céu azul estalava de claridade.
O relógio da torre da igreja acabava de assinalar as horas com dez badaladas roufenhas do sino, e enquanto me dirigia ensonado à cozinha, reparei que aquela manhã decorria de uma forma estranha, muito diferente da habitual. Por toda a casa percebiam-se murmúrios, atarantos, passos rápidos e silenciosos, acenos, vultos desconhecidos, enleios.
Eu acordara um pouco mais cedo, e não era costume ver a avó Tadade ali, àquela hora da manhã. Ainda assim, foi ela que logo que deu comigo se aprestou a pôr sobre a mesa da cozinha a caneca do café com leite e que a seguir abriu um pão de bico com as mãos, com um desembaraço que me surpreendeu. Reparei contrariado que a avó Tadade não usara uma faca, como fazia sempre a minha mãe; só retirou uma da gaveta para barrar o pão, em lances rápidos e profundos, com a manteiga de um pacote novo que descortinou com dificuldade no fundo do armário. A avó Tadade deixou na caneca um café com leite morno, coisa que ainda hoje eu repudio com veemência, e no pão pôs manteiga a mais para o meu gosto; via-se bem que a avó Tadade não conhecia minudências como aquelas, e faltou-me coragem para reclamar. Apressada, abandonou a cozinha de imediato, mas voltou atrás para recomendar
– Agora come sossegado e fica caladinho, ouviste, nino?
de forma peremptória e definitiva. Foi o que me disse a avó Tadade, e, agora me lembro, vi que as pálpebras lhe tremiam como tremem as das pessoas preocupadas.
Algumas mulheres entravam de rompante na cozinha e sumiam-se com toalhas ao ombro e bacias de água fumegante
entre as mãos, que transportavam num vaivém apressado, chinelando ensimesmadas em passadas largas e decididas. A minha irmã cirandava pela cozinha ou trotava escada abaixo, escada acima, os olhos negros e brilhantes vagueando à toa, silenciosa e de mãos afundadas nos bolsos do avental.
Só então me acudiu à lembrança de que me tinham dito tempos antes que iria ter um irmão ou outra irmã, logo se via; e ao ser-me perguntado o que preferia, retruquei que não sabia, que aquilo nem me aquecia nem arrefecia, e encolhera os ombros, amolado com a nova. Cogitei que, se calhar, era aquela a ocasião.
Engoli o café com leite e comi o pão a contragosto. Antes de mais nada, porque a manteiga aos montes deixava-me sempre na boca uma espécie de sabor a ranço e provocava-me náuseas demoradas. Desalentado, limpei os beiços com as costas da mão e tomei ar fundo, tentando afastar maus pensamentos.
Estava expectante, mas ao mesmo tempo sentia medo, não me perguntem porquê. As mulheres passavam por mim como se não me vissem e a minha irmã ainda não tinha embirrado comigo uma única vez. Achava tudo muito extraordinário. Amarfanhado com tamanho mistério, decidi ir até às escadas que davam para o andar de cima para ver como paravam as modas.
Subi uns degraus hesitantes e acochei-me no patamar. Observava distraído a passadeira de plástico com grandes quadrados castanhos, já gasta nos locais de passagem, presa aos degraus por barras de madeira com umas pontas de metal dourado e baço. Sentia um desamparo inarredável, como um cão a quem, por descargo de consciência, tivessem dado um osso para se entreter. Olhei para cima. Do quarto dos meus pais não via sair nem entrar ninguém. A sala deserta. Aos poucos, apoderava-se de mim uma ansiedadezita traiçoeira.
Foi então que pouco tempo depois escutei uns gemidos longos e abafados, um restolho de vozes, um arrastar de pés e artefactos. De repente surdiu em mim uma funda curiosidade. Os olhos doíam-me de tanto vasculhar os ares.
Ouço por fim um choro de bebé. Vigoroso e triunfal, aquele choro sacode o silêncio morno da manhã e deixa-me grudado ao patamar. E logo vozes alvoroçadas, curtas e fagueiras. Pelos vistos, sempre era verdade: acabava de nascer o intruso, de quem nem sequer sabia ainda o nome ou o sexo. E sou percorrido por um arrepiozito na espinha.
Às tantas, a porta do quarto abre-se de escantilhão e surgem algumas mulheres com mais roupas nos braços, decididas, os rostos abertos e reluzentes de satisfação, que se ficam pela sala num zunzum de conversas arrebatadas. Alguns minutos depois, que para mim foram um ror de tempo, do cimo da escada a avó Tadade faz-me um sinal com a palma e ordena
– Anda cá, vem ver o teu irmãozito
os olhos cor de avelã, pequenos e vivos a transbordar de felicidade.
Aproximo-me. Entro cauteloso no quarto, olhando para o chão e avançando como um burro com palas. Um raio de sol rompe a custo por entre as portadas semicerradas das janelas, derramando-se sobre a colcha acetinada de flores e ramagens. Um ar abafado, um odor forte a álcool canforado. Sobre a mesa de cabeceira tremula a chama de uma lamparina à Senhora do Ó. Minha mãe jaz na cama, um braço mole sobre a testa. Olha-me e sorri. Dou com os olhos na senhora Marsdé Barriguita, a velha aparadeira da terra, que, sentada na beira da cama, colocara o neófito chorão no regaço amplo de saias pretas e compridas. Atónito, vejo-a agora de dedos entrelaçados e com as mãos à volta da cabeça dele a cingi-la e a soltá-la suavemente, fazendo deslizar assustadoramente os ossos do crânio em movimentos contrários visíveis sob a pele escorrida e avermelhada. Só depois o deita ao lado da mãe. Lembro-me que naquele momento mal me tinha nas pernas.
Esta imagem nunca me abandonou. Ficou-me na memória, assim clara, assim estampada, como dentro de uma moldura. Por isso, ainda hoje continuo com a cisma de que foi aquela técnica ancestral da senhora Marsdé Barriguita que conferiu ao mano o privilégio raro de poder exibir para sempre uma cabeça tão formosa.
Mas não me posso demorar no quarto. Já me estão a dizer que tenho que ir numa correria à Escola para pedir à dona Delfina que me ajude a telefonar para a litografia e dar a notícia do nascimento a meu pai. Sinto-me orgulhoso com esta responsabilidade de pessoa grande que me atribuíram ao ter de
encarar a temível dona Delfina e fazer o primeiro telefonema da minha curta vida. Decidido a tudo, lanço um olhar furtivo ao manito e saio de afogadilho para aviar o recado.
(Tudo isto aconteceu no dia 10 de Julho de 1955. Juro por estes que a terra há-de comer que me recordo do nascimento do menino como se fosse hoje.)
Respeitando a voz e a intenção do autor, este texto é publicado na sua versão original, sem edição e revisão.
O texto segue escrito de acordo com a ortografia antiga.


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