Memórias de Natais

Isabel ornamenta o centro de mesa de Natal, com frutas naturais, e repara nas maçãs. De repente, o brilho que refletem fazem-na parar. Naquele instante, a sala moderna desaparece. Está, novamente, na casa dos avós, junto da árvore que o avô fazia: um simples pinheiro com farinha, a fingir de neve, adornado com pêros encarnados, que, esfregados com um trapo de lã, ficavam brilhantes como as bolas de Natal das árvores das pessoas ricas das cidades, onde havia luz.                                                     

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Nasceu e cresceu, em Coimbra, mas quando era criança, por vezes, as férias do Natal eram passadas, em casa dos avós, numa aldeia remota, apesar da proximidade à cidade. Apenas, quarenta quilómetros, distanciavam os dois lugares, mas, na pequena localidade, a luz elétrica só chegou no início dos anos 70. Eram os candeeiros a petróleo e as candeias de azeite que alumiavam as noites. Os invernos eram frios, os campos cobertos de geada. 
Aquecia-lhe — e, à família —, o lume de chão, na cozinha, onde a avó Ângela fazia uma sopa deliciosa, de pôr a colher em pé. Usava umas panelas de ferro com três pernas, que Isabel guarda com estima.
Anoitecia cedo, pelo que todos se sentavam em pequenos bancos feitos pelo avô, à roda da fogueira, e contava-se histórias, muitas inventadas, que ela recorda e que ainda as vai contar. O avô Augusto comprava o Borda d’Água1 , para se informar sobre as luas, os minguantes, as sementeiras, as colheitas, a apanha da azeitona. Queria saber se o ano que viria seria de miséria ou de fartura nos campos.
A matança do porco costumava ser em novembro: era preciso preservar — e tentear, como se dizia — as carnes, para o ano inteiro. Por cima do fogo, no alto, atravessavam-se uns paus, engenhosamente colocados pelos homens da casa: era o fumeiro, onde estavam penduradas as chouriças, as morcelas e as farinheiras. Estes enchidos eram feitos com as tripas do porco, que eram lavadas na ribeira gelada que corria perto da casa. Viravam-nas pelo avesso e esfregavam-nas com sal, depois deixavam-nas na água durante a noite, para ficarem bem limpas. Eram presas com pedras para que não fossem arrastadas pelas correntes fortes, e as levassem! As outras carnes eram conservadas e guardadas na arca salgadeira e em potes de barro com banha.
Quando estavam ao lume, conversando, colocavam chouriças nas brasas, para comerem umas rodelas — cortadas com a navalha do avô —, sobre um naco de broa de milho, cozida no forno de lenha, pela avó, na mesma cozinha, atrás da lareira de chão.

1Almanaque português publicado anualmente desde 1929 pela Editorial Minerva. Contém previsões meteorológicas, conselhos agrícolas, fases da lua, provérbios e medicina popular, sendo um guia tradicional para o meio rural.

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2 respostas a “Memórias de Natais”

  1. Avatar de Manuel Ferreira da Costa
    Manuel Ferreira da Costa

    Retrato delicioso de um Natal de meados do século passado.
    A autora transporta-nos ao ambiente rural austero e duro da época, e faz com arte o que muitas vezes apenas imaginamos: leva-nos a saborear a inesquecível sopa da avó, a apreciar rodelas de chouriço cortadas com o canivete do avô, a olhar inebriados a panela de ferro trípode que respira no lume, a nossos pés.
    Após tantos anos volvidos, não resistimos ao encanto dos Natais da nossa infância, e a nostalgia apodera-se de nós. E o resultado é este: expomo-nos assim, como se despidos. Porém, desta vez, de uma forma brilhante, como fez a Isabel Simões.

  2. Avatar de Carlos Fernando Ferreira da Costa
    Carlos Fernando Ferreira da Costa

    Que excelente conto.
    Que lindo regresso ao passado.
    Um natal tão simples, tão singelo e tão cheio, tão repleto daquilo em que éramos ricos e pródigos: sonhos, alegrias, ilusões, um contentamento infindável e muita felicidade.
    Eu também lá estava.
    Obrigado

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