Mar, hoje e sempre

No início, era o Mar, vaivém incessante de água, ora paciente, ora fogosa. Água pura e dura, líquido perfeito que purifica e dá vida.
Pouco depois, chegou o Tempo, cheio de si, arrojado e imponente. Ordenou-lhe que avançasse terra adentro e que não olhasse para trás. E o Mar assim fez.
Paciente e incansavelmente, galgou margens, areais e dunas. E quem por ali passasse via apenas água a perder de vista. E é à Memória que se vão agarrando essas paisagens de outros tempos, farrapos em tons de pastel e dourado no “intervalo entre permanência e mudança”.
O Tempo, satisfeito, sentia-se respeitado e exigiu que também as terras altas desaparecessem. E foi assim que, uma vez mais, o Mar invadiu planaltos e serras, dando lugar a monstros horrendos, deformados e gastos pelo “gesto contínuo” das marés. Eretos e firmes, rasgando o ar límpido e salgado, parecem sentinelas numa vigilância contínua à espreita do fim de algo, talvez o fim de uma era.
Mas o Mundo não fez caso nem do Tempo nem do Mar e pediu à Memória licença para continuar. Passaram os dias, os meses, os anos e os séculos; fizeram-se guerras e houve a paz; a vida sucedeu à morte, descobriram-se terras, pessoas e coisas…, mas a vida pulou e avançou e o Mar ainda cá está.
E até hoje, depois de cada passagem, afável e cruel, segue o seu rumo, paulatinamente, ora embalando todos quantos nele habitam ou que por ele passam, ora revelando o seu carácter caprichoso e terrível, derramando sofrimento e desgraça junto de outros tantos.
Não obstante o passo certeiro do Tempo, o Mar, em herói silencioso, ainda preserva e abriga fauna e flora colorida e luminosa dos quatro cantos do Mundo, resguardando também, nas suas profundezas, tesouros e segredos de outrora em pequenos cemitérios escuros.
O Tempo, esse, apesar de decrépito, continua até hoje a sua vigia constante, impregnando o ar, à sua passagem, de um odor de infinito, enquanto o Mar, ávido de espaço, continua a percorrer a Terra de lés a lés.

O autor inspirou-se na exposição "Erosões", da artista ceramista Marta Botelho.
Avatar de Celeste Ferreira

Uma resposta a “Mar, hoje e sempre”

  1. Avatar de Isabel Curado
    Isabel Curado

    Texto belíssimo! Parabéns, Celeste.

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