Quero contar-te como foi. Mas, na realidade, de como foi, pouco me recordo. Porque, tu não sabes, mas, na minha caixinha pequenina, existem muitas histórias e outras tantas estórias.
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“O pai tá lá longe”, é o que a mãe diz à Duxa, com dois anos, desde que o pai partira.
No reencontro, a menina, olhando cabisbaixa para aquele homem grande, responde, quando a mãe lhe pede para que ela lhe dê um beijo: “Não! O pai tá lá longe!”
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Tudo é tão longe, em Moçambique. Aqui, os soldadinhos chegam fresquinhos para logo de seguida partirem para o meio do mato.
Sabemos quando vão e quando vêm, porque os aviões que os levam e os trazem de lá longe, onde a guerra acontece, rugem bem acima das nossas casas.
Só os soldadinhos, não sabem, porque para eles tudo é incerteza, quando, ainda, na sua terra natal, lhes é comunicado. Após a recruta intensiva, muitas vezes violenta, vão para o outro lado do mundo. Levam os amigos, os amores, as histórias e as memórias. Tudo fica tão longe e tudo é tão diferente do mundo que conhecem.
Aqui, vagueiam pela maravilhosa cidade que os recebe e que lhes ficará para sempre no coração. Os soldadinhos, de faces bem rosadinhas, sempre bem aprumados nas fardas, exibem-nas com orgulho, ao passarem pelas jovens: a Duxa, a Guiduxa, a Carmo e a Lurdes; saltam-lhes os olhos das órbitas. Ai, se eles pudessem… Ai, se elas deixassem…
As raparigas riem-se dos piropos. Sabem que eles são de lugares recônditos da metrópole, em que as raparigas são mais recatadas, parolas1. Aqui, não há frio e, por baixo da roupa estreita e curta, eles percebem as curvas singelas dos seus corpos jovens.
Elas sabem que muitos militares deixaram lá longe, as namoradas ou as esposas, com promessas de amor para sempre, até que a morte os separe e os filhos nascidos e outros por nascer. E, também, sabem que muitos não os veriam mais: o tio Aquiles, o «menino» da avó da Duxa, que foi e não mais voltou da guerra na Guiné. A avó foi condecorada pelo governo e o nome do seu herói, hoje, consta na lista infinita do memorial dos Combatentes da Guerra Colonial.
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"Queres ser minha madrinha de guerra?", perguntam. As cartas que receberiam lá de longe, da metrópole, demorariam semanas a chegar-lhes às mãos, nos confins daquele país, pelo que ter uma apoiante moral seria um elo ao mundo. Um conforto. Uma esperança.
No furor da juventude, no país do outro lado do mundo, não se discute sobre a guerra, nem em casa, nem na escola, nem com os amigos, os brancos, os negros e os indianos, porque sempre fora assim: os soldadinhos a ir e a vir nos aviões enormes. Só sabemos que os soldadinhos nos defendem e nos salvam a pátria.
Os familiares e amigos, que chegam da pequena aldeia da metrópole, são os nossos soldadinhos que vão para a guerra do ultramar, como o tio Aquiles, e alguns a quem lhes calhou o dever de parar na cidade onde vivemos. Um deles é o soldadinho das máquinas voadoras, que desenha um avião e que, por isso, assina um pequeno livro de autógrafos: «Um grande beijinho do Glorioso Maluco das Máquinas Voadoras». Este não é um simples soldadinho, porque embora ele vá para lá longe, para o norte, para os confins do mato, ele voa.
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O pai parte para a terra natal com a convicção de não regressar, apesar da discordância da mãe, tal como há catorze anos, quando partira para receber a família, aqui, depois de organizar a vida. Hoje, tem uma filha jovem e um filho pré-adolescente. Nada que o demova: como pai protetor, quer certezas.
E, o dia da revolução chegou.
Na entrada do liceu Gago Coutinho alguém comenta em sussurro: “Ontem, houve uma revolução, em Lisboa”. Alguém se surpreende: «Revolução? Porquê? Eu só tinha ouvido falar de revoluções nas aulas de história». «Mas, a história da minha vida tem uma revolução?», pergunta outro colega.
Mais uma vez, o pai está tão longe e não consigo falar com ele. A mãe diz que ele está bem. Mas, agora, mais uma vez, o pai está lá longe.
Finalmente, a mãe conforma-se e confirma-nos: «Vamos ter com o pai. Vocês já estão em lista de espera para apanhar o avião, assim que as aulas terminem. Eu fico, tenho de organizar tudo aqui, e irei assim que tiver voo.»
A menina aceita, pensando que um dia voltará à terra que a vira crescer. «É lá longe que estão os amigos», pensa. E, as recordações.
A adolescente, parte com o irmão pela mão e uma enorme boneca de braçado, que tinha ganho num teatro da escola há uns anos. Leva na bagagem da vida, a vida que vivera: os amigos e os amores, as memórias e as histórias. De lá longe.
1Alguém que é considerado menos evoluído.


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