Erosões

Visitei "É uma casa portuguesa, com certeza" — de Diogo Montes — em Coimbra, e saí com a convicção de ter encontrado Portugal inteiro em poucos metros quadrados. Um Portugal que cheira a terra e a mar, a sardinha assada, a mel e a forno de lenha; um lugar que, a cada esquina, surpreende com artesanato, azulejos e produtos típicos das várias regiões deste enorme país.
Diogo, o anfitrião, recebeu-me com aquela afabilidade lusitana que não é servilidade nem frieza, mas uma morna gentileza que nos faz sentir em casa sem que ninguém o declare em voz alta. A música, criteriosamente escolhida, convida ao silêncio interior. Nas paredes estende-se a exposição “Erosões”, de Marta Botelho: sobre o mar e sobre o que os poetas disseram, e algumas coisas que eles esqueceram.
Achei por bem não desfrutar deste espetáculo sozinho e convidei um dos maiores vultos da nossa literatura ligada ao mar: Luís de Camões. Ele assegurou a presença via pombo-correio, num pedaço de pergaminho amassado, mas de dignidade intacta.
Luís chegou de "Cavalo Lusitano" — o que em Coimbra, no Século XXI, constitui menos uma entrada triunfal do que um problema de trânsito. De espada em punho, abajur de ferro enfiado na cabeça "às três pancadas", suíças e barbicha mal-amanhadas e um farrapo descaído a cobrir o olho vazado, exclamou à entrada da Portagem, triunfante: — “As armas e os barões assinalados!...”
Existiam outros meios de transporte, mas um herói nacional não podia ser visto a chegar por aplicação móvel. Noblesse oblige, como ele próprio diria, se soubesse francês.
A Polícia Municipal intercetou-o na ponte. O corcel estava miseravelmente enchafurdado em lama até às esporas, por via das recentes enxurradas que devastaram o condado. O cavaleiro gesticulava e gritava, apontando o espadalhão numa direção que os agentes consideraram, com alguma razão, ameaçadora: — “As armas e os barões assinalados!...”
Camões, imperial e de peito cheio, chocalhando as condecorações, declarou em oitava rima os seus direitos como Cavaleiro de Santiago: — Velhos do Restelo! Pela Santa Madre!... Ide limpar os carreiros em vez de tributar as gentes da plebe, que é esse o vosso mister! Não estorveis quem tem missão! Aleivosos!
Os agentes entreolharam-se com absoluto desconcerto e como quem sabe que a formação policial não cobria aquele cenário.
Antes de seguir para a galeria-café, Camões destacou o seu mensageiro, o Pero das Caldas, para avisar Leonor da sua chegada. Após a abertura de trombetas na Praça de Sansão, cantou sem cessar: — Não te assustes com o farrapo que prantei no olho, fermosa donzela, pois que este o perdi em Ceuta a lutar contra os sarracenos! Vem encontrar-te comigo onde a desgraçada Inês foi trespassada, mas, atenção, calça umas alpercatas, não vás molhar a meia que a ribeira vai cheia, por obra da tresloucada "Tormenta Kristin" que o Adamastor e Belzebu expediram para este austero reino de ladrões farto!…
E assinou: "Teu Luís (aquele que só tem olhos para ti... quer dizer... apenas um). Amor é fogo que arde sem se ver!…"
Chegou enfim ao café "É uma casa portuguesa, com certeza" sem honra nem glória, como outrora à Índia, mas sempre com o olho na posteridade. Entrou em gadelhas, capacete debaixo do braço, a armadura retrô a chiar como portinhola de quinta mal oleada e uma coroa de louros seca e encarquilhada na cabeça de onde surtiam uns raquíticos cabelos brancos.
Entrou de rompante. Olhou em redor com o olho que tinha mais à mão, fitou-me e dirigiu-se-me de imediato: — “As armas e os barões assinalados!...” Vós, Senhor Costa!... Valha-me o Criador! Vós, grande Varão deste Reino d’Aquém e d’Além-Mar!... Não vos esperava em tão singela indumentária! Vós estais mesmo "de tanga", como dizia o da Troyka!... “As armas e os barões assinalados!...”
Fiquei com a chávena de café suspensa entre o pires e uma apoplexia fulminante perante tão estapafúrdia personagem saída do armário do tempo. Ainda consegui gaguejar: — Eu!… Perdão… o senhor é o Sr. Luís... O senhor Luís de Camões?!...
Mas ele não me deixou concluir. Bateu com o espadalhão no chão e uma faísca fez tilintar os copos no armário e os meus nervos: — Não sejais modesto Senhor Costa! Bem sei que os grandes homens se ocultam sob mantos de simplicidade! “As armas e os barões assinalados!...”
— Mas eu não sou…
— Silêncio! — bradou ele, teatral, apontando-me o dedo dentro da luva fedorenta como se eu fosse o Cabo das Tormentas. — Também o de França vos tece loas em verso alexandrino, ainda que mal rimado! “As armas e os barões assinalados!...” Olhe, Senhor Costa, até o de Inglaterra, que não é deste reino, Vos agracia com os maiores louvores… embora ele ande apoquentado a tapar o sol com a peneira por causa dos Lords que estavam envolvidos com o sicário do americano…“As armas e os barões assinalados!...”
E quanto ao agora apeado Monarca Supremo, o tal Professor, ah!... ainda vos lembrais?! Esse ainda vos beija a mão com mais frequência do que consulta a Constituição, principalmente quando vós o cobríeis com a sombrinha! Lembrais-vos disso?! ah, ah, ah! "Aqueles que por obras valerosas / se vão da lei da morte libertando"… “As armas e os barões assinalados!...”
— Senhor Luís, desculpe — disse eu —, com todo o respeito, eu sou só um cidadão de Coimbra que...
Camões recuou um passo. Olhou-me de alto a baixo. Aproximou o olho que via, aconchegou o trapo no outro e… — Como?!... Vós não sois o tal das Europas?!... Dizei-me, Vós não sois ou não sois primo da Beatriz Costa? E do meu amigo Kevin Costner (Costa)?!...
Luís deu mais um passo atrás, esfregou o olho sadio com a luva e, com ele muito aberto, declarou: — Deixai-vos de ardis!… Não vos escarneçais de mim Senhor Costa!... Vós não sois o Costa?!... Não sois vós que decidis o destino das nações?! “As armas e os barões assinalados!...”
— Não, senhor… Eu mal decido assistir às aulas de Escrita Criativa...
Seguiu-se um silêncio pesado, digno de tragédia clássica ou das listas de espera do SNS. Camões coçou a barbicha e exclamou: — Oh, infâmia! Então... sois outro Costa!...
— Justamente…
— Um Costa... sem cargo, sem presidência… sem nada?...
— Nem mais.
— Sem gabinete?
— Apenas um quarto num T0, derivado da crise nas albergarias e afins...
— Sem assessores?
— Apenas a minha mulher.
Camões levou a mão ao peito, que soou como um gongo ferido por uma metáfora mal colocada, acariciou a medalha de S. Cristóvão dependurada no peito e, em encenada hipérbole, exclamou: — Ó Fortuna vil! Ó desaventurada traição dos apelidos! Fui traído pelos homónimos e pelos homógrafos!... Mil vezes pior que a traição da D. Carlota Joaquina que é do tempo da “D. Maria Castanha”!... “As armas e os barões assinalados!...”
De súbito, recompôs-se. Endireitou o arnês, aprumou as latas, fez tilintar os medalhões como quem reorganiza argumentos e declarou, com renovada manipulação: — Ainda assim, Senhor Costa: mais vale um Costa verdadeiro sem poder, do que mil poderosos sem engenho! Vós tendes honra e dignidade — é pena não terdes dinheiro…, mas tendes uma riqueza maior, exatamente o que falta a muitos alcaides que governam este pobre reino que se há de tornar numa autêntica república das bananas! "Aqueles que por obras valerosas / se vão da lei da morte libertando"… As armas e os barões assinalados!...”
Baixou a voz, conspirativo: — Ainda vos digo mais: Coimbra perde um grande homem! A Universidade perde um grande reitor! Portugal perde um grande Provedor de Justiça! E o mundo… perde um magnífico presidente, muito melhor que o anticristo amarelo, e chega!... "Aqueles que por obras valerosas / se vão da lei da morte libertando” …
— Mas, Senhor Luís — disse eu —, o senhor enganou-se e continua enganado. Deve ser da idade… Eu só o convidei para o Café do amigo Diogo Montes e para apreciar a exposição “Erosões…”, de Marta Botelho.
Camões abriu os braços, grandiloquente: — E que maior feito há, Senhor Costa… do que trazer um morto vitalício ao grémio da Cultura?! Bem pior seria trazer o Camilo Castelo Branco como leitura obrigatória em detrimento do nosso Nobel José Saramago… isso é que seria uma desmiolada sentença… “As armas e os barões assinalados!...”
Pausou. Aproximou-se com a chiadeira da armadura a exalar um forte odor a azinhavre e glórias passadas: — Dizei-me, por vossa vida: servem nesta estalagem café das Índias?
— Sim, Senhor Luís… no Café de Diogo Montes há de tudo como no boticário!…
— Vós sois, sem dúvida, um grande homem, Senhor Costa! — exclamou, abraçando-me com tal efusividade que um espigão da couraça me atravessou o peito, roçando o coração. Acrescentou depois, em tom de confidência conspirativa: — Quando vos aprouver, levar-vos-ei na minha caravela descapotável num périplo pelas Índias… e apresentar-vos-ei umas fermosas ninfas que por lá deixei em suspenso; catervas de donzelas pejadas de saudades e de apetecíveis decassílabos… e do mais fino e sonolento ópio das Índias… para que o mundo nos pareça, por fim, um canto heroico sem fim!... “As armas e os barões assinalados!...” ah ah ah !...
Fez uma vénia torta, tropeçou levemente com o escafandro numa estrofe épica que ali jazia, e rematou: — “As armas e os barões assinalados!...” Mas, sobretudo, os Costas... ainda que em duplicado!... Senhor Costa, vamos prover ao estômago e comer uma "bucha" no "Passa-fomes"! Estão lá à nossa espera a Natércia e a Dinamene, que aportou agora do Oriente com o trapalhão do Fernão Mendes Pinto… Senhor Costa, a exposição de Marta Botelho, “Erosões…”, é o amor puro… merece, no mínimo, uma Prosa Épica! "Aqueles que por obras valerosas / se vão da lei da morte libertando"…
Saímos os dois, enlaçados como velhos camaradas de armas. Já no limiar da porta, Camões voltou-se e atirou:
— Ó Infanção do café, caro Diogo Montes… quinta-feira, mal o sol beije as águas tristes do Mondego, aqui me tereis de novo a exigir um pastel de Tentúgal das Carmelitas Calçadas... Não me deis por ausente, que o Poeta-Mor nunca se despede sem repetir a dose! “As armas e os barões assinalados!...”
E partimos de vez para a neblina da história.
Diogo Montes desligou a luz. Ficou por um momento no escuro, entregue aos seus pensamentos. Sorriu, à sua maneira… tudo pode suceder no "É uma casa portuguesa, com certeza", ainda mais com a exposição “Erosões…” no horizonte. Sorriu de novo e cerrou a porta.
Lá fora, o eco ainda trazia um último verso: "— Amor é fogo que arde sem se ver!..."

O autor inspirou-se na exposição "Erosões", da artista ceramista Marta Botelho.
Avatar de Carlos F. Costa

4 respostas a “Erosões”

  1. Avatar de maria ivone costa
    maria ivone costa

    Parabéns, Carlos!
    Está magnífico o conto.
    Muito bem escrito, cheio de criatividade, onde não escapam os pormenores linguísticos de Camões!
    Adorei!

    Ivone Costa

  2. Avatar de Isabel Curado
    Isabel Curado

    Delicioso texto humorístico de crítica social que mistura o passado com o presente. Muito bem conseguido. Parabéns, Carlos!

  3. Avatar de Rafeiro Perfumado

    Quem diria que o meu primo tinha jeito para a prosa? Muito bom, Carlos, parabéns!

  4. Avatar de Dulce pitarma
    Dulce pitarma

    Adorei ouvir este conto
    É uma delícia.
    Parabéns!

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *