— Tu não sabes ter um diálogo; tu és como um pássaro livre. Falas sem parar. Seja qual for o meu argumento, tu discordas, e vais em frente nessa tua luta muito tua — disse o mais idoso dos dois.
Naquele dia, encontraram-se numa cama do hospital, o homem organizado e o homem como um pássaro livre na outra cama.
— Tu não paras de falar - resmungou o Organizado.
— Não me chateies - declarou o Livre como um Pássaro.
Para o Organizado, o hospital não era um lugar diferente dos outros. A postura deveria ser a mesma. Para o Pássaro Livre, nada era à partida negado. Era mais relativista e até considerava que poderia, mesmo na sua idade, apaixonar-se por uma enfermeira do hospital. Por que não?
— Tu és mesmo burro, não vês que as enfermeiras são muito novas para isso — afirmou com convicção o Organizado.
Mas o Livre como um Pássaro avisou que não há barreiras e que as barreiras era só no atletismo. — Riu-se.
— Tenho pena de ti — zangou-se o Organizado.
E o Pássaro Livre insistia até que o Organizado ameaçou pedir para mudar de quarto mesmo que fosse um quarto apenas com uma cama.
Na mesinha de cabeceira do Organizado estavam todos os haveres necessários, e também os não necessários, assim como o jornal sem o qual não passava. Pelo contrário, na mesinha de cabeceira do Livre como um Pássaro prontificavam-se apenas papel e caneta.
— Deves escrever muito… muito bem — ironizou o Organizado.
— Eu escrevo o que me apetece — sentenciou o Livre como um Pássaro.
Havia uma história de rancor do Organizado com a poesia e com os escritos em geral: para quê escrever se a vida é tão curta? E mais: por que não pensarmos ao invés no silêncio ou ouvir uma boa ópera? Quis assim convencer o Pássaro Livre de que não valia a pena lançar-se à escrita. Só faltou dizer: «vamos...» Mas não completou a frase; nem neste caso o Pássaro Livre teve coragem de dizer alguma coisa. De facto, os argumentos do Organizado já tinham passado os limites e havia agora uma vantagem segura para os novos argumentos do Pássaro Livre.
— Não vês que escrever é tudo? - precisou o Pássaro Livre.
Pela primeira vez, o Organizado não respondeu e reconheceu que era demasiado contido face ao dom de viver. Depois, o trágico aconteceu. O Organizado espreitou para os apontamentos do Pássaro Livre.
— Então, escrever não interessa e o senhor espreita para os meus apontamentos? — Tratou-o de modo mais formal.
Havia dias em que se tratavam por senhor; outros em que se tratavam por tu, mas normalmente era pela segunda pessoa, já que quem mais falava era o Pássaro Livre que considerava que as pessoas são todas iguais.
— E, de facto, acertou: não gosto de óperas — disse o Pássaro Livre.
Já há uma semana que partilhavam o mesmo quarto, pois a primeira letra do nome de ambos estava próxima no alfabeto. Mas como se verá, o Pássaro Livre vai encarar melhor os últimos suspiros, as visitas de familiares, os últimos momentos.
O sobrinho do Organizado aparecia muitas vezes. Ficara ligado ao tio e a olhar para a janela tentou alegrá-lo com o passado, o qual estava longe e já não voltaria. Depois, pegou numa cadeira e levou-a até perto do doente e fez-lhe festas no rosto.
— Olha que ele não chora. Tem o coração frio. Desculpe intrometer-me.
— Está perdoado, eu conheço o meu tio e sei que ele é assim, mas agora dê-me uns minutos a sós com ele — pediu o sobrinho do Organizado.
— Com certeza — rematou o Pássaro Livre.
O Pássaro Livre esperou, esperou e esperou e não havia meio de a sessão acabar até que decidiu entrar, pedindo desculpa, mas o sobrinho disse-lhe que já tinham conversado, agradecendo-lhe a retirada.
Em vez de adiantar a sua opinião sobre a conversa que sucedeu entre o Organizado e o sobrinho, voltou para os seus papéis que considerava serem muito mais importantes que outro assunto. O Pássaro Livre só chorava com as dores físicas, porque sentimentalmente estava muito bem graças à filosofia de vida que sempre adaptou.
Nestas condições, não havia hipótese de uma amizade entre eles; eram o oposto, se é que na vida há opostos.
Às vezes dormiam de dia e estavam acordados de madrugada e já sabiam as rotinas das enfermeiras mais bonitas, pelo que procuravam conversa com elas; quanto a isto, eles não eram assim tão diferentes. Aliás, um homem ser muito diferente de outro homem não é assim tão recorrente.
O cheiro do hospital era mais incómodo para o Organizado que sempre se cuidou com uma higiene exagerada. Para o Livre como um Pássaro a reação perante os cheiros nauseabundos do hospital era diferente. Por isso, e por outros motivos semelhantes, é que o Pássaro Livre era mais flexível do que o Organizado, o qual pretendia uma morte com lógica, como se na vida pudesse haver mortes com lógica; o Pássaro Livre achava que a morte fazia parte da vida.
O tema da morte foi aparecendo cada vez com mais intensidade nos temas de conversa entre ambos, sempre que o Organizado deixou ver um pouco de si pelo outro. Houve um dia em que uma enfermeira teve de pôr ordem no quarto, porque antes de haver um diálogo, praticamente existia uma tareia de argumentos em que o Organizado ameaçava partir para as bofetadas.
— Os senhores são umas belas crianças — ironizou a enfermeira. No quarto voltou a entrar o silêncio embora o Organizado tenha trincado o lábio inferior com muita vontade de partir para a violência física.
Depois vinha à baila os jornais que o Organizado lia e que lhe criavam uma falsa sensação de segurança. Muitas vezes o Livre com um Pássaro perguntava-lhe se ele preferiria ler um dos seus poemas.
— É que os meus poemas são únicos e o que vem nos jornais é igual todos os dias — provocavam-se mais uma vez. Pelo facto de serem raras as vezes em que concordavam estava a criar-se um ambiente intranquilizador.
— O senhor só pensa nas suas musas e eu nunca me interessei por mulheres. Talvez o senhor tenha mais motivos concretos para escrever, eu pura e simplesmente não gosto de escrever e prefiro um bom ensaio de um jornalista — explicou o Organizado.
E o que é raro aconteceu: neste último argumento concordaram.
Depois de todas estas peripécias, no entanto, o cenário permanecia: as folhas em branco e as canetas do Pássaro Livre e os jornais e o arrumo meticuloso da sua mesinha de cabeceira por parte do Organizado. Quem iria aguentar mais tempo? Não sabiam, porque nenhum deles sabia ao concreto o que tinha e os médicos tinham através das várias análises, que estavam a ser feitas, ainda poucas certezas.
Mas esse dia chegou.
Primeiro para o Pássaro Livre que, segundo o médico, podia voltar para casa se tomasse este, aquele e mais outro medicamento. O azar bateu à porta do Organizado a quem foi comunicado que as análises ainda eram inconclusivas.
— O senhor quer que eu o venha visitar às vezes? — sugeriu o Pássaro Livre que conseguiu, ainda assim, ter algum carinho pelo seu colega de quarto.
— Faça como quiser, e agradeço-lhe, mas já sabe que somos muito diferentes — concluiu o Organizado enquanto o Pássaro Livre organizava as suas poucas coisas para rumar até casa.
Sim, eles eram muito diferentes, mas uma coisa grave os unia: não terem namorada. O Organizado não se importava e preferia a rotina e o Pássaro Livre já sabia que as mulheres eram difíceis (pelo menos essa era a leitura dele).
Assim, a sorte beneficiou o Pássaro livre que, segundo o médico, podia voltar para casa tomando cinco ou seis medicamentos todos os dias, enquanto o Organizado tinha em mãos um problema de saúde mais complicado. O Pássaro Livre ao saber disto, sugeriu que por vezes podia visitar o Organizado e aconteceu um milagre porque o Organizado aceitou, e assim fez entrar na sua rotina tão organizada um amigo.
— Não fique nervoso, ou melhor, não fiques nervoso, logo estarás em casa —jurou o Pássaro Livre.
— Não me parece — disse desalentado o Organizado.
— Posso lhe ler um poema meu? - anunciou o Pássaro Livre.
— Se tem de ser - disse o Organizado já com poucas forças.
— Então é assim:
Amigo, a morte
É igual para todos.
Só o mundo vivo
É que não é igual
Para todos.
Sorte?
E de que modos?
Momento decisivo
Sim, tal e qual
E de que modos?
— Obrigado — conseguiu dizer o Organizado que, pela primeira vez, elogiava um poema do Pássaro Livre.
A saúde do Organizado estava cada vez mais débil, até que passadas umas semanas de convívio com o Pássaro Livre, o Organizado foi ligado às máquinas estando iminente e para sempre a sua não estadia no planeta terra.
Nos últimos tempos de vida do Organizado, era o Pássaro Livre que lhe comprava os jornais, e lia ao enfermo as últimas notícias se bem que o Organizado estivesse cada vez mais alheado do tempo presente vivendo uma espécie de meio-tempo entre a vida e a morte.
Criou-se, assim, uma amizade entre dois homens opostos, mas com uma coisa em comum: a solidão.
No último dia, o Organizado agarrou a mão direita com força do Pássaro Livre e neste último esforço disse como que um adeus para sempre à humanidade. E, não morrera sozinho como previra. Estava ao seu lado o poeta, o bom selvagem, a liberdade, a companhia, a simpatia, a ausência de preconceitos, tudo um pouco. E uma lágrima escorregou do rosto do Organizado.
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