Em breve, Maria faria anos, um número redondo, setenta para ser mais preciso. Com a partida de João, companheiro de uma vida longa e preenchida, a casa tornara-se grande; as filhas tinham saído do ninho, há muito. Por isso, era o momento para dar um novo rumo aos dias que lhe restavam, mas a mudança não iria ser fácil. Ter de se despojar da casa era como se tivesse de abandonar um ente querido. Mais do que um imóvel, aquele lugar era uma parte dela, que lhe sussurrava constantemente lembranças, muitas felizes e outras menos.
Com as lágrimas nos olhos, Maria dirigiu-se ao sótão, divisão à qual teria agora de arrancar as suas memórias mais queridas. Tinha de destralhar — dizia. Não podia adiar mais.
Iniciou a tarefa junto de uma das estantes com livros, alguns ainda da época dos avós; outros, de alfarrabistas e adquiridos pelo pai, colecionador compulsivo de obras antigas e estrangeiras, especialmente de filósofos e pensadores. Partia-lhe o coração não poder levá-los para o seu futuro lar. Teria de ser criteriosa na seleção.
Começou a tirá-los com cuidado quando, subitamente, viu cair algo. Parecia uma folha, inicialmente, mas pôde aperceber-se do engano quando pegou nela. Ao ver a fita azul que a prendia e as dobras cuidadosas, percebeu que se tratava de uma carta. Curiosa, tirou a fita e abriu-a e o espanto ainda foi maior ao reparar na data: 7 de junho de 1862. Cada vez mais intrigada, decidiu encetar a leitura.
Meu doce rouxinol,
Espero que se encontre bem desde a minha última visita ao palacete do Senhor seu tio. Nem imagina o quanto a sua presença me fez feliz. Ainda bem que pôde acompanhar a sua irmã. O seu sorriso iluminou a minha noite e a sua doce voz ainda me acompanha até hoje. Onde quer que eu esteja, parece-me ouvi-la como se estivesse ao meu lado, mas é sobretudo no meio do silêncio que a sua presença se torna mais nítida embora saiba que não é real.
Infelizmente, sei que o nosso enlace nunca verá a luz do dia, mas basta-me vê-la e trocarmos algumas palavras, por mais parcas que sejam, para que a minha vida valha a pena! Acredite que, enquanto puder, contentar-me-ei com a sua presença, mesmo que fugaz, pois bastar-me-á cruzar o seu olhar ou admirar a sua silhueta ao longe no decorrer de um dos seus passeios pela avenida.
Querida Maria Eugénia, estou plenamente convicto de que partilha dos meus sentimentos, porém também estou ciente de que Cupido nunca levará por diante a nossa união, pois as convenções e a sua posição social prevalecerão sempre sobre os meus nobres sentimentos. Também nunca me atreverei a propor-lhe que fuja comigo, pois jamais me perdoaria vê-la sofrer ao ter de afastar-se dos seus e do seu meio. Estou certo de que chegará o dia em que o seu pai lhe imporá o matrimónio com um cavalheiro da sua estirpe. Mas até lá vou continuar a sonhar com a possibilidade de vê-la ao longe ou ouvir a sua doce voz por breves instantes num qualquer evento, assim o acaso nos ajude.
Sempre seu,
José Manuel
P.S. Aproveito para lhe pedir que agradeça o precioso auxílio da sua irmã.
Maria estava estupefacta. O que acabara de ler era uma genuína prova de amor, verdadeiro e eterno, mesmo que platónico, vivido além-tempo por um dos seus. Já tinha ouvido falar da trágica história de amor do seu trisavô materno, José Manuel, mas parecera-lhe, naquela época, tratar-se antes de uma narrativa criada pela pena de um Shakespeare ou de um Camilo Castelo Branco do que de uma história real surgida em tempos remotos no seu seio familiar.
Aquele achado era agora uma autêntica relíquia, tornando-se em mais um episódio a acrescentar à saga familiar. A infelicidade do seu trisavô foi não ter nascido um século depois, pensava ela. E no meio das suas reflexões, começaram a vir-lhe à memória, por fragmentos, partes dessa triste história do seu antepassado.
Lembrou-se, assim, de a mãe ter falado das circunstâncias casuais em que o seu trisavô vira Maria Eugénia pela primeira vez. Nada faria supor que o amor surgiria no decorrer de uma visita de negócios totalmente banal. Maria Eugénia e a irmã acompanhavam o pai quando apareceram no cartório do tabelião António Manuel da Silva, pai do trisavô de Maria, para tratar da escritura da venda de um qualquer bem. De imediato, José Manuel ficara fascinado com o rosto pálido e tímido que acabara de entrar, não conseguindo tirar os olhos daquele semblante doce, ali, defronte dele, pelo que foi com relutância que teve de voltar aos seus afazeres assim que percebeu o despropósito do seu olhar insistente.
De súbito, um som estridente fez sobressaltar Maria, fazendo-a deixar cair a carta e regressar ao presente. Era o telemóvel. Ao ver que a chamada não era urgente, apanhou a folha e embrenhou-se, de novo, no passado.
Surgiu-lhe, assim, a figura do seu trisavô à procura da sua amada por tudo quanto era lugar. Com efeito, a partir daquele dia, não mais descansou e foram muitas as tentativas em rever a jovem, tendo, para tal, recorrido a diversos subterfúgios. Cheio de esperança, foi sonhando com o momento em que a encontraria para poder trocar umas palavras com ela. Pode dizer-se que a sorte lhe sorriu umas semanas depois quando a irmã mais velha se dirigiu, de novo, ao cartório, mas, desta feita, sozinha. Foi então que José Manuel se encheu de coragem e deixou fluir os seus sentimentos que ecoaram suavemente no coração de Maria Luísa, tendo esta sido de uma ajuda preciosa para os seus intentos em diversas ocasiões.
Enquanto ia relembrando a conversa da mãe, Maria tentou imaginar a figura daquela amada. Teria sido muito bonita e meiga — pensou ela, tendo em conta a forma como o trisavô se lhe dirigia no início da carta ao interpelá-la com a expressão «Meu doce rouxinol». Que pena não terem podido viver o seu amor livremente! Se fosse hoje, tudo seria possível… — disse ela já em voz alta. Mas eram outros tempos, uns tempos em que cortejar implicava regras rígidas, é certo, mas também palavras, procedimentos e gestos delicados e sensíveis. Era o romantismo no seu máximo esplendor. Infelizmente, também imperavam o preconceito e o julgamento fácil, pois era num ápice que uma donzela poderia perder a honra se se desviasse dos preceitos estabelecidos, nem que fosse por escassos momentos.
Ao tecer estas considerações, veio-lhe à memória, entretanto, um outro fragmento da conversa com a mãe em que esta lhe contara de que modo o seu antepassado tinha percebido que aquele amor não passaria de um lindo sonho sem qualquer futuro. E até o tempo, qual mensageiro da desgraça, parecia querer alertá-lo para o desfecho infeliz, pois foi sob um céu pesado de abril à espera da tempestade que se aproximava rapidamente, que a dura realidade o atingiu de chofre. Com efeito, ao mandar seguir a carruagem em que Maria Eugénia regressava a casa, percebeu a barreira que os separava. Após ter tido o cuidado de deixar entrar a sua amada, mandou avançar o cocheiro para perto da entrada do palacete e foi então que viu o brasão. Bastara-lhe a visão daquela pequena insígnia para compreender que a classe social a que pertencia a sua eleita nunca se coadunaria com o meio em que vivia, embora tivesse uma vida relativamente abastada. Era como se uma fronteira intransponível os separasse ali naquele instante.
Que história de amor tão triste! — exclamou Maria. E foi a lastimar a infelicidade do seu antepassado que ouviu, de novo, o som do telemóvel a chamá-la.
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