Reunidos naquela tarde à porta da taberna do Joaquim Duarte, todos o aguardávamos. Mal ele apareceu, largou misterioso o desabafo
– Olhem lá… lá. Estive cá a pen… pensar.
Foi o que ele disse.
Com o passar dos anos é com frequência que dobro os olhos para antigamente e vejo que a minha memória regista vários episódios que permanecem vivos. Quando os recordo passa por mim um arrepio nostálgico e reconheço que os da adolescência eram o reflexo da vivacidade, da irreverência e da ingenuidade – mas também de uma boa-disposição permanente, simples e sã. Não resisto a relatar este.
Não resisto a relatar este e lembro-me bem que as tardes de Verão de antigamente eram muito longas, monótonas e quentes. O Largo reverberava de calor. Não passava vivalma, não se ouvia um som, não voava um pássaro, nada mexia. Minto. Algo mexia. Para ser franco, havia uma única coisa que todos os dias mexia, no Largo: as galinhas da Vidade Cochicha. Lentas e descuidadas, cirandavam por ali, mesmo defronte da casa dela, do outro lado da estrada, ciscando o chão à sombra das oliveiras, catando bichos e ervas, as cabecitas a dar a dar, num bando disperso e colorido. E foi então numa tarde dessas que se derramou luz da cabeça do Manel Bento.
Líder por natureza, que desde cedo se revelara, o Manel era corpulento e afável, sabia como usar a sua gaguez de forma cativante, como inspirar confiança, dispor da sua estatura física, fazer brilhar os olhos, parecer surpreendente e também como conseguir efeitos de surpresa. Estas características, aliadas a um sentido de humor fabuloso, tornariam o Manel Bento um verdadeiro ícone da nossa terra.
Foi, pois, para aquele dia que o Manel Bento decidiu marcar uma reunião com o grupo habitual da gandaia. O objectivo da reunião era grandioso: o Manel queria pôr em prática o plano do arco-da-velha que arquitectara.
– Olhem lá… lá. Estive cá a pen… pensar
e então decretou ele solenemente que no dia seguinte teria de ser executado um espectacular golpe de mão no Largo. De olhos arregalados pela dúvida, escutámos obedientes o proémio
– Mas para que a coisa tenha su… sucesso é preciso resolver aqui dois pro… problemas importantes cumó ca… caraças, hein, vejam lá… lá: o pri… primeiro, é que ninguém pode dar com a lín… língua nos dentes; e o segundo, é preci… iso que tudo aconteça à hora da sesta, antes que as ga… galinhas da Cochicha voltem prá ca…ca… capoeira. Estão a ou… ou… ouvir ó quê?
Paralisados por tanto mistério, pousámos os olhos nele. De cigarro aceso entre os dedos, o Manel botou-se a atirar finalmente o plano cá para fora e desmanchou-se de imediato na distribuição das tarefas, posto o que se virou para o Baltazar, a sua famosa gaguez a dar ímpeto à sentença
– Ora bem, o que eu queria era que tu fo… fosses ali amanhã, como quem não… não… não quer a coisa, deitasses a la… la… labita a uma galinha e zum… zumba!, lhe cravasses uma agulha num… num… num ouvido. Íamos depois fazer uma pan… pan… pandiguinha com ela na mi… minha adega. Qué… qué… qué que tu achas?
Chupa o cigarro com sobranceria, os olhos semicerrados, aquelas frestas com um súbito brilho profundo a destacarem-se no rosto claro. Trava o fumo e expele-o depois com alarde, levantando o queixo, num movimento ensaiado.
Atarantados, os compinchas dão uns soslaios, mas o Baltazar não tuge nem muge. Parece estar imerso num sonho definitivo. Acorda segundos depois, a voz nasalada a raspar-lhe os gorgomilos num
– Atão, e depois?
e o Manel Bento
– Oh, de… depois, morreram as vacas e fi… ficaram os bois!
Mas logo, paternal
– Ó pá, olha cá pra… pra mim
e o outro
– Estou a olhar.
– Não tenhas me… medo porque a galinha não… não faz barulho.
– Oh!
– Oh, pó!
É que o Baltazar não gostava nada que duvidassem da sua coragem. Ele bem sabia que há voltas e reviravoltas na vida, há pendências que só se resolvem com pulso rijo e vontade férrea. Por isso, empertigou-se categórico, espetando o indicador no peito
– Medo, eu? Cum caraças. Mas atão eu sou algum atronhado, ó quê? Atão diz lá, se fachabor, cumé que eu fiz da outra vez com a galinha do… do… já não me lembra. Deixa-me cá pensar. Ah, já sei, com a galinha do Pupurru, por exemplos, ãhn?
e cuspiu para o lado.
A bazófia dá uma excelente cor às pessoas e as faces do Baltazar brilhavam. Estava com a corda toda. Paciente, o Manel Bento respirou fundo e prosseguiu, cavalheiresco
– Ó pá, tem calma. E dei… deixa-te lá de fi… filetes. Eu só quero é saber se ali… linhas. É que se… se… se tens medo, sou capaz de ir perguntar ao Zé… Zé Pato. Mesmo só com um bra… braço, é capaz de resolver o assun… sunto
e o Baltazar a irritar-se e a ficar branco, mais branco do que a lua em noite de Verão
– Mau Maria… Tou trabalhado contigo. Ó pá, eu seja ceguinho se tenho medo!
– Uih, cá… cá… cála-te boca.
O Manel Bento acanhou-se de dizer o que tinha debaixo da língua. Mas decidido, lá continuou com o plano
– Bem, atão não… não faltes. Às cinco. Agora vê lá se… se… se… róis a corda
recomendou ainda, a desconfiar de tanta intrepidez.
O Baltazar ficou com uma sensação, uma funda e desconfortável sensação de que estava a ser subestimado. A cara dele era propensa à jovialidade, mas desta vez contraiu-se-lhe. Porém, numa euforia heroica, abriu a alma ao prometer
– Ouve lá, isso pra mim é palha. Amanhã lá tou. Nem que chovam picaretas
e o hálito dele exalou um cheiro que eu na altura associei à massa consistente.
O Manel Bento olhou-o de lado. Visto de perfil, o nariz fazia uma curvatura ligeira ao meio da cana, como o dos índios, e terminava um tanto aguçado. O Manel era um jovem bonito. O peito era amplo. Os olhos castanho-claro, um tudo-nada papudos, quase se fechavam completamente quando ele ria, o que inspirava confiança. A boca era larga, com uns lábios finos e bem delineados. O queixo redondo mostrava um pequeno gilvaz antigo que fazia adivinhar uma infância traquina. Escuta a bravata do Baltazar com ar ausente, ao mesmo tempo que acena com a cabeça. Continua depois a dar-nos ordens, sacudindo a cinza do cigarro para o chão.
– Bem, o meu irmão e o Quim fa… fazem depois uma fogueira na adega. E vo… vocês os três arranjam uma broa ou duas, ma… malaguetas e du… duas cebolas das no… novas. Combinem. Eu desenrasco o re… re… resto. Depois, ca… cada um de vocês leva o seu garfo, ouvi… viram?
Palavras não eram ditas e já esfregamos as mãos, entusiasmados. O Manel faz uma pausa e alça a cabeça, os olhos semicerrados, tacteando as ondas do cabelo aloirado, num tique que lhe é peculiar. Mira de longe as galinhas da Cochicha, como que antecipando a acção. De súbito, num tom estridente e marcial, exige
– E agora, pi… pianinho!
e rematou a ordem ao atirar a pirisca para o meio da estrada, servindo-se do polegar e do médio como catapulta.
Os confrades mencionados pelo Manel Bento não cabem em si de contentes, e começam desde logo a engendrar a forma de cumprir com o planeado. Estão na expectativa, mal podem esperar pelo dia seguinte. Passa-lhes pela cachimónia o ditado que diz que “quando o pobre come galinha, um dos dois está doente”. Qual quê? Chiça, não haveria de ser o caso daquela vez!
Mas como um verdadeiro estratega exige resultados perfeitos dos seus subordinados, o Manel não se faz rogado e lança o derradeiro aviso ao Baltazar, arregalando os olhos
– Agora vê lá se… se apanhas uma ga… ga… galinha-da-índia! É que aquilo cabe na co… co… cova de um dente!
Foi o que ele disse.
O Baltazar dormiu que nem um justo nessa noite, isto é um supor. O certo é que, no dia seguinte, à hora combinada, eis que ele surge sorrateiramente dos lados do Canto. Olha para um lado e para o outro, de cabeça baixa, como se tivesse acabado de sair de um latíbulo. Atravessa a rua e sobe suavemente as escadas que dão para o Largo. Leva a mão direita afundada no bolso das calças, a esquerda ao abandono. As galinhas da Vidade Cochicha lá estão, vivazes e despreocupadas. Esgadanham laboriosamente o chão e disputam minhocas imprudentes que debicam, num alegre pavoneamento de aventais de penas doiradas. O Baltazar aproxima-se cautelosamente do bando e, com o sangue frio próprio do exterminador, agacha-se, e zás!, em menos dum credo espeta no ouvido de uma franga a agulha de albardar que na véspera surripiara da caixa de costura da tia. A galinha aninha-se sem um ai, como um cachorrinho. Foi tiro e queda.
O Baltazar assenta então um olhar lento em derredor enquanto esconde o troféu debaixo do suéter, numa súbita atrapalhação de penas. Levanta-se e trota calmamente a caminho da adega do Manel Bento, amparando o chumaço com ambas as mãos, como se o segurasse numa pequena padiola.
Encostados às Alminhas, vemos como param as modas, um migalho ansiosos, os olhos vagueando em todas as direcções. O Largo permanece tranquilo, não se ouve qualquer alarido. Olhamos para o Manel que, para disfarçar, limpa as unhas com um fósforo. O Baltazar passa então por nós como cão por vinha vindimada, silente e imperturbável.
De modo que pouco depois entrámos de escantilhão na adega. Seriam quê, cinco e meia, seis horas? A operação fora um êxito, a Cochicha não dera por nada, e estávamos todos metidinhos num sino.
O Baltazar esperava já por nós, os olhos pequenos e negros vazando um brilho de orgulho. Especado junto a uma pipa, tem na mão um galináceo taludo suspenso pelo pescoço.
À frente da comitiva, o Manel Bento, preocupado com os pormenores, encara o Baltazar
– Trouxeste a agulha?
e o outro, ofegante, de mão estendida, a atropelar a gramática
– Truxe. Mas ó pá, dá cá já um copo, porque estou com umas securas danadas.
O Manel aproxima-se de um tonel, retira o espicho e enche um copo. Sorridente, entrega-o ao Baltazar e conforta-o com brandura
– E estás… ás porreiro, ó quê?
e o Baltazar, numa satisfação súbita e feroz
– Eu? Na ponta da unha!
– Atão che… chega-lhe.
E logo começam os preparativos para tratar do petisco. De dentro de um mosqueiro, o Manel Bento retira triunfante uma tigela repleta de azeitonas retalhadas e um cartucho de arroz que subtraíra em segredo do armário da cozinha da mãe. Às duas por três aparece a broa, como por encanto. Despejam-se bolsos e sorrisos, e todos os ingredientes são colocados alegremente sobre uma grande mesa rústica de madeira. Lá fora, à saída da adega que dá para as Alagoas, o fogo já crepita sob um tacho de alumínio.
Uma coroa de nuvens frágeis e vermelhas agasalhava os pinhais para lá das Lombas. Dentro da adega sentia-se um aroma inspirador que, só por si, era um verdadeiro regalo para o corpo e para o espírito.
Já não sei quem foi o cozinheiro. O que é certo é que, à volta do tacho, saboreámos de pé aquele maná entre gargalhadas, vivas às galinhas da Cochicha e copos de um clarete de se lhe tirar o chapéu, acabadinho de sair do tonel, que até parecia veludo no céu da boca. Quanto à cabidela, essa, estava de trás-da-orelha.
O texto é publicado respeitando integralmente a pontuação e as opções estilísticas originais do autor, sem intervenção editorial, de forma a preservar a cadência e a voz narrativa próprias desta memória. O texto segue escrito de acordo com a ortografia antiga.


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