A Evolução do Eu

Na minha infância, o mundo era muito pequeno e áspero; não ia além da minha aldeia, era bruto e feito de terra batida.  Os sonhos eram curtos e a preto e branco.
As estradas eram, apenas, trilhos rasgados na natureza: em pó nos verões e lamacentos nos invernos. Os caminhos da vida eram, ainda, mais duros do que o chão que se pisava.
A luz elétrica que varava a escuridão, nas noites longas, era uma miragem em algumas casas e praticamente inexistente nas ruas. O brilho tímido das estrelas e o ranger do vento nas portas eram a nossa companhia.
Os nossos ideais eram modestos, e as ambições reduziam-se ao pão na mesa e à roupa remendada, limpa, que tanto dizia sobre a dignidade como sobre a escassez, a pobreza, nessa lonjura a pouca distância da cidade.
Vivia-se um tempo cinzento, em que a esperança tinha a cor da ferrugem e da terra cavada. O futuro era uma palavra enorme comparada com a nossa minúscula vivência, mas o tempo encarregou-se de tecer novas linhas no pano do mundo: as estradas alcatroadas e as autoestradas, a eletricidade, as antenas, que trouxeram as vozes, as imagens e os confins do mundo. Até a Lua se alcançou.
A tecnologia ergueu-se como o sol pela manhã: quente, dourada, brilhante: iluminou o mundo à velocidade dos sentidos.
O que antes era pobreza tornou-se, em muitos casos, memória, o que era sonho, realidade. Os transcendentais contos de fadas da infância — exagero dos sonhadores —, respiram hoje nas telas do cinema, ou no streaming cruzando os céus, rindo desavergonhadamente dos candeeiros a petróleo.
Uma parte do mundo deixou de existir; deixou de ser terra e suor, a preto e branco, para se transformar em luz, som, energia e cor. A miragem materializou-se: se, outrora, ficção era refúgio, hoje é realidade, e uma prova de que até o cinzento pode florescer em cor.
Continuamos no caminho.
Avatar de Carlos F. Costa

7 respostas a “A Evolução do Eu”

  1. Avatar de José Elias
    José Elias

    Muito bom…

  2. Avatar de Lígia Rodrigues
    Lígia Rodrigues

    Gostei muito!!

  3. Avatar de Helena Neves Almeida
    Helena Neves Almeida

    Uma escrita cheia de imagens e lugares que me conduziu na viagem e me fez companheira do percurso. Gostei muito, Carlos.

  4. Avatar de Ivone Costa
    Ivone Costa

    Dou por bem empregue o tempo que foges para a escrita criativa.
    No teu conto, consigo visualizar os caminhos da aldeia onde nasci.
    Podes continuar que, em casa, vou fazendo a parte que te compete 😌
    Que tenhas sempre a criatividade que te caracteriza.
    Beijinhos

  5. Avatar de Isabel Curado
    Isabel Curado

    Que texto carregado de verdade e de memórias, sempre com a crítica social a espreitar. Também sou tua fã, melhor dizendo, fã da tua escrita.

  6. Avatar de Isabel Curado
    Isabel Curado

    Texto repletode memórias, sempre com a crítica social a espreitar. Sou fã da tua escrita. Não deixes de escrever!

  7. Avatar de Isabel Simões
    Isabel Simões

    Um retrato fantástico.
    Muito bem escrito e descrito!
    Gostava tanto que os jovens o lessem…
    A forma como termina: “Continuamos no caminho” não nos deixa ficar indiferentes. De todo!

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