Na minha infância, o mundo era muito pequeno e áspero; não ia além da minha aldeia, era bruto e feito de terra batida. Os sonhos eram curtos e a preto e branco.
As estradas eram, apenas, trilhos rasgados na natureza: em pó nos verões e lamacentos nos invernos. Os caminhos da vida eram, ainda, mais duros do que o chão que se pisava.
A luz elétrica que varava a escuridão, nas noites longas, era uma miragem em algumas casas e praticamente inexistente nas ruas. O brilho tímido das estrelas e o ranger do vento nas portas eram a nossa companhia.
Os nossos ideais eram modestos, e as ambições reduziam-se ao pão na mesa e à roupa remendada, limpa, que tanto dizia sobre a dignidade como sobre a escassez, a pobreza, nessa lonjura a pouca distância da cidade.
Vivia-se um tempo cinzento, em que a esperança tinha a cor da ferrugem e da terra cavada. O futuro era uma palavra enorme comparada com a nossa minúscula vivência, mas o tempo encarregou-se de tecer novas linhas no pano do mundo: as estradas alcatroadas e as autoestradas, a eletricidade, as antenas, que trouxeram as vozes, as imagens e os confins do mundo. Até a Lua se alcançou.
A tecnologia ergueu-se como o sol pela manhã: quente, dourada, brilhante: iluminou o mundo à velocidade dos sentidos.
O que antes era pobreza tornou-se, em muitos casos, memória, o que era sonho, realidade. Os transcendentais contos de fadas da infância — exagero dos sonhadores —, respiram hoje nas telas do cinema, ou no streaming cruzando os céus, rindo desavergonhadamente dos candeeiros a petróleo.
Uma parte do mundo deixou de existir; deixou de ser terra e suor, a preto e branco, para se transformar em luz, som, energia e cor. A miragem materializou-se: se, outrora, ficção era refúgio, hoje é realidade, e uma prova de que até o cinzento pode florescer em cor.
Continuamos no caminho.
7 respostas a “A Evolução do Eu”
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Muito bom…
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Gostei muito!!
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Uma escrita cheia de imagens e lugares que me conduziu na viagem e me fez companheira do percurso. Gostei muito, Carlos.
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Dou por bem empregue o tempo que foges para a escrita criativa.
No teu conto, consigo visualizar os caminhos da aldeia onde nasci.
Podes continuar que, em casa, vou fazendo a parte que te compete 😌
Que tenhas sempre a criatividade que te caracteriza.
Beijinhos -

Que texto carregado de verdade e de memórias, sempre com a crítica social a espreitar. Também sou tua fã, melhor dizendo, fã da tua escrita.
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Texto repletode memórias, sempre com a crítica social a espreitar. Sou fã da tua escrita. Não deixes de escrever!
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Um retrato fantástico.
Muito bem escrito e descrito!
Gostava tanto que os jovens o lessem…
A forma como termina: “Continuamos no caminho” não nos deixa ficar indiferentes. De todo!


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