A chuva tamborila nos vidros e caixas de estores, miudinha e fria. Da janela vejo o jardim com a glicínia roxa e frondosa enrolada na velha nespereira que parece chegar ao céu. A magnólia branca coberta de flores como uma noiva brilha no relvado. A esguia palmeira verde esticou-se até às nuvens. Hortênsias pululam nos canteiros que aqui e ali se misturam com roseiras e jarros. Na escada de pedra debruça-se a enorme buganvília roxa. Vasos enormes de cimento cheios de gerânios coloridos enfeitam o espaço, enquanto o velho banco verde nos convida a descansar.
Resolvo subir ao velho sótão, ignorando os queixumes dos degraus e decidida a fazer uma pequena incursão às memórias de infância. Aqui está o cavalinho de baloiço — de madeira pintada e crina de grossos fios amarelos, que outrora fizera as minhas delícias —, tombado no chão poeirento; uma cesta grande de verga meio partida com bonecas zarolhas sem braços; carrinhos de lata ferrugentos do meu irmão; alguns soldadinhos de chumbo do meu pai; móveis partidos, carunchosos e poeirentos. O chão geme sob os meus passos e vejo que as tábuas há muito perderam o viço. O pó ergue-se à minha passagem, obrigando-me a espirrar, e as teias de aranha pendem como cortinas espessas.
De súbito, os meus olhos caem na grande mala antiga de porão que trouxera o enxoval da minha mãe. Resolvo explorar. Ao remexer em tecidos desbotados, comidos pelas traças, e papéis bafientos cheios de manchas amarelas e acastanhadas, vejo, no fundo, um envelope quase desfeito. Num misto de receio e fascínio, desdobro a folha que ali se encontra, com mil cuidados, e começo a ler as letras sumidas pelo tempo:
Minha querida e amada Maria,
Escrevo-te com o coração apertado pelas saudades. Sonho sempre contigo como se fosses um ser inatingível e acordo suado, lembrando os teus beijos. Este mar que nos separa não consegue desatar o nó do laço que nos prende. Penso sempre em ti, com amor e esperança de que o tempo passe mais depressa e nos voltemos a abraçar.
Tenho dias medonhos! Apetece-me atirar à água e nadar por aí fora até te poder agarrar. A saudade devora-me muito lentamente e a dor que sinto no peito é bem real. Que tortura é ter-te tão longe, minha Maria!
Ainda não recebi notícias tuas e isso consome-me ainda mais. Será que já me esqueceste? O teu amor por mim desvaneceu-se? Tudo loucuras da minha mente, eu sei!
Estou exausto e desesperado. Se não receber carta tua…Ah, como amar-te me faz sofrer!
Teu noivo que te adora
Eduardo
É a carta do meu pai para a minha mãe. Não imaginava que o que os uniu fosse tão tormentoso!
Sei que o romance fora um relâmpago; durara pouco mais de seis meses. Pela data, percebo que devia estar de férias na ilha, junto dos meus avós e tios. Anos atrás, descobri que a minha mãe engravidara de mim; um escândalo na época. Deve ter sido por isso que se precipitara o casamento, ainda eles não tinham terminado os respetivos cursos, o que os obrigou a viver na casa dos meus avós, transformando a partilha num inferno vivo. As discussões constantes, ou porque ela não entrava na cozinha, nem que fosse para dar ordens às criadas, ou por eu chorar e não ir a correr pegar-me ao colo. Lembro-me bem das discussões que me deixavam a tremer de medo. Acabei por ser mais filha de avós do que de pais. Não havia tempo para mim, porque tinham de estudar. A minha mãe era uma bela morena de olhos verde-azeitona, cintura fina e anca larga, pernas bem torneadas e peito firme. Nas fotografias parece uma artista de cinema mudo. O meu pai era alto, moreno, musculado de olhos grandes e negros. Um casal de sonho!
Sabia dos ciúmes loucos do meu pai, mas nunca tinha imaginado que ele sofresse assim.
Penso nas coisas que a minha mãe, às vezes, deixara escapar: do namorado do liceu que ficara na ilha, da vontade enorme de estudar no continente que os fizera separar. Fora na faculdade que conhecera o meu pai e a insistência dele em precipitar o noivado e o casamento, nem a deixara pensar no passo que dera. Como ele a esperava, sempre impaciente. Agora entendo melhor como aquele amor fora tormentoso e exigente.
No sótão o tempo estagnou, e eu perdida nas memórias, permaneço de carta na mão. Nunca pensara demoradamente na vida que tiveram. Muitos anos de matrimónio nem sempre é sinal de felicidade. A minha mãe fora uma mulher amarga e um pouco distante de mim. Pensando bem, muitas vezes vinha do quarto com olhos vermelhos e com olheiras. Nunca ligara muito a isso. E agora já não sobra ninguém para contar a história. Resta, apenas, esta carta amarelecida pelos anos e as minhas ténues memórias desses tempos.
2 respostas a “A carta”
-

Fantástico!
O teu texto é de uma sensibilidade e riqueza visual extraordinárias, transportando-nos com mestria desde a pintura viva daquele jardim sob a chuva até à atmosfera nostálgica do velho sótão. A forma como utilizas a carta antiga para desenterrar a complexidade do casamento dos teus pais demonstra uma maturidade literária impressionante, contrastando com delicadeza a paixão idealizada do noivo com a realidade amarga e silenciosa que se seguiu.
Ao fechar a narrativa com uma reflexão tão profunda sobre o tempo, as convenções sociais e as heranças emocionais que carregamos, a tua escrita humaniza o passado e prova que a beleza e a dor caminham muitas vezes lado a lado.
Parabéns por dares voz a memórias tão profundas com tanta elegância e respeito.
Gostei bastante -

Carlos, esta história não retrata os meus pais! Engano teu, neu amigo. Mas gostei muito das tuas palavras. Obrigada.


Deixe um comentário