A candidatura

Com estatuto, na Instituição, referenciam-no pela formação e profissão que conquistara, embora não tenha um lugar de destaque. Martinho tem consciência das dificuldades que tem em expressar-se: repete o que os outros dizem ou diz exatamente o contrário. Aflige quem priva com ele.
— Como vai a sua candidatura para o cargo político? — indaga-lhe um colega, coçando o cabelo junto à nuca.
— Sim, vai bem — solta um suspiro, agudo, como se fosse o último.
— Mas está tudo a correr bem? — insiste, cravando a unha no couro cabeludo.
— Sim, está tudo a correr bem — olha-o de lado, evitando a próxima pergunta. — Então, e a ti, como vão… — Apressa-se a sair do gabinete, mas o colaborador insiste:
— Há concorrentes, não há?
O superior acena várias vezes com a cabeça: «Preciso trabalhar».
Ele está num lugar bem posicionado, no gabinete, no centro da sala. Junto à parede, há dois vasos com plantas altas. Foram colocadas pela Violeta que gosta de flores. As restantes três mesas posicionam-se de modo que os funcionários não se vejam, e para que lhe seja mais fácil de controlar os subalternos.
Os trabalhadores desconhecem a competência exata do superior:
— O que se sabe é que ele trata de quem se inscreve e dos currículos das pessoas que vêm trabalhar para o Algarve, mais propriamente para esta Instituição — explica uma funcionária a outra.
— …

Um casal de estrangeiros vendera todos os bens, com o objetivo de residirem em Portugal, onde compraram uma casa pequena para reabilitar. Sem emprego, precisam de ajuda, por isso, foi-lhes dito que contactassem com Martinho, que lhes questionou sobre a vinda para o sul do país:
— Qual é a vossa formação específica?
— Ela é da área financeira, e ele… — aponta para o marido.
— Ele trabalha em qualquer área — explica a secretária, apressando-se, pois sabe que eles falam mal a língua portuguesa.
No fim da reunião, pedira-lhes o curriculum mais detalhado e marcara um novo encontro.
Passados quatro meses, a funcionária da secretaria — visivelmente consternada — aborda o superior:
— Foi encontrado algum lugar para aquele casal de emigrantes que estiveram aqui?
— Casal de emigrantes? Para trabalharem connosco? Ah…! Estou a ver! Esqueci-me, de todo!
— Como assim? Este casal esteve aqui em agosto, e, desde então, lhes dissemos que o processo estava a ser ultimado. Precisam urgentemente de emprego. Estão cheios de encargos.
— Ah! Vou ver. — Olha para o telemóvel desinteressadamente, e para a porta de saída, convidando-a a não permanecer por ali. — Tenho de tratar de outro assunto.
No corredor, Maria encontra a colega, visivelmente perturbada:
— Mas, afinal, qual é o problema? O que se passou lá dentro para estares com esta cara? Ele arranjou-lhes o tal emprego?
— Não sei o que lhes vou dizer. Não tratou de assunto nenhum. Aliás, não sei de que é que ele trata. Mas, agora, sou eu que vou ter de dar a cara como se fosse eu a culpada.
— Não tratou, nem trata.
— O que é que me estás a tentar dizer, Maria!? — Encosta-se no canto da mesa, numa outra sala, cruzando os braços e esperando que a colega lhe dê as notícias que lhe chegam sem que ela precise se levantar.
— Já houve aí vários problemas, mas não me quero meter nisso…
— Agora que começaste, vais falar, vais contar o que… — eleva o tom e surpreende-se com outra colega, que a interrompe:
— Ele não tratou de nada, novamente, não foi? Pela tua cara, já estou a ver o que te disse sobre o casal! — E, com ar solene, confidenciou: — Há cerca de um ano, aconteceu o mesmo com outro pedido de emprego de um casal de fora, que veio para cá. Há dois anos, foi com uma mulher… uma senhora… olha, já não sei… acho que era espanhola…, mas já não me lembro bem…
— Não sabia disso! Estou a trabalhar aqui, há menos tempo do que vocês. Ele atrasa sempre os processos de todos os emigrantes?
— Se fossem todos os processos, mas não, é só com alguns! Ele tem bom gosto… — Ri-se, tapando parte da cara com as mãos.
— Está tudo dito. Elas são a causa?... Elas… pois! Ele bem tenta… hum!... Estou a ver… Já me tinha apercebido, aqui dentro… com algumas… coleguinhas… Só deve tratar dos processos de quem lhe dá conversa — remata, a Maria, eufórica, por ter mais um assunto para falar na manhã seguinte com os restantes colegas.
— Bem, estamos todas a perceber o que se está a passar. Nem sei como vou encarar este casal. Têm contas para pagar e com condições para trabalhar... Oh, pá! Já são quase cinco e meia e ainda tenho de ler uns emails. Trabalho, sabe ele dar-me — a voz rude não disfarça o sentimento de reprovação que lhe assola. Ela jamais o imaginara capaz de tal comportamento.
— Amanhã, até nos levantamos com mais alegria para virmos trabalhar. A procissão ainda vai no adro. Há mais coisas que não sabemos, de certeza — entusiasma-se Maria. — Até amanhã.
— Esperem! — grita a secretária, agarrando o écran do computador com a mão esquerda.
— O que é que foi? — recuam, inquietas, para saberem a novidade.
— Não é que estavas…?.
— Estávamos… certas… — gritam em conjunto as duas colegas.
— Nada… Nada. Ainda, tenho de trabalhar.
— É sobre o que estivemos a falar e não nos queres dizer — comenta a Maria.
Temendo pelo seu emprego caso o chefe descubra estas conversas, a secretária tenta acalmar-se. — Não acredito no que estou a ler — murmura, estática. Com a mão ainda sobre o rato, paralisa perante o email que Martinho enviara por lapso, um minuto antes de sair para uma reunião. Em silêncio, relê a confissão enviada pelo chefe ao responsável da candidatura:

Caro amigo,
na sequência do que falámos, temos de nos encontrar urgentemente. Acabei de ouvir zunzuns aqui dentro. Estás a perceber, não estás? Não posso prejudicar a candidatura.
Liga-me daqui a uma hora e meia.
Até lá,
Martinho
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