A armar-se em parvo

Quando dei com o Virgílio na Visconde da Luz, especado em frente ao homem-estátua, e ele me alertou
— Põe-te a pau que o Acácio anda a armar-se em parvo
com um olho em mim e outro no homem-estátua, eu não acreditei. Não acreditei que o Acácio andasse a armar-se em parvo, porque o conheço há uma data de anos e sempre o achei um companheiro impecável, amigo do seu amigo, carinhoso com as crianças e muito respeitador e solidário.
Ainda há uns tempos, estávamos nós a jogar a bisca no Escondidinho, quando lá apareceu um pedinte. Carregava um pequeno saco a tiracolo, que se lhe engelhava por baixo das mangas do casaco largueirão, e tresandava a raposinhos. De cabelo grisalho, farto e sujo, trazia numa mão uma boina com o forro virado para cima, que estendia às pessoas, enquanto com a outra cofiava a barba de dias. Eu fiz de conta que não o via, mas ele pediu ajuda ao Acácio, trazendo um sorriso triste à cara de doente terminal. O Acácio levantou o queixo para mim, e, num murmúrio
— Olha lá, adianta-me aí cinco euros, que eu não tenho destrocado
o que de todo não me surpreendeu, derivado ao coração de ouro do Acácio. Condoído, estendeu-lhe a nota numa mão em concha, trémula e encardida, ele agradeceu com uma breve inclinação da cabeça, e continuámos com a bisca. Ao fim da terceira cabeça, o Acácio informou-me que tinha um compromisso urgente e saiu apressado. Não se lembrou da despesa que fizemos com as taças de branco fresquinho que lá bebemos, que por acaso era de trás-da-orelha, nem com os pratinhos de lagartos de porco que mandámos vir, mas não se me afigurou estranho, pois quando eu tenho pressa para fazer alguma coisa, por vezes até me esqueço de colocar os aparelhos nos ouvidos, das luzes acesas em casa, ou até mesmo da carteira.
Para ser franco, eu acho que o Acácio está a ressentir-se da idade. É que há coisa de mês e meio, ele foi com a mulher, a Justina, a Peniche para participar numa competição de pombos-correio. O Acácio é um fã dos pombos-correio. Tem um pombal com bichos de várias origens e características, e vá que não vá ganha prémios com as proezas dos animais. Gaba-se dos seus pombos, dizendo que voam a mais de 80 km/hora e que exibem carúnculas e topetes muito mais vistosos do que os demais. Como eu não percebo nada de pombos-correio, acredito piamente no meu amigo Acácio (e acho que piamente é a palavra adequada). O único senão é que os pombos, que ocupam uma marquise lá de casa, fazem um barulho tal nas gaiolas que, cá para mim, são a causa de uma surdez severa que ele tem no ouvido esquerdo. De maneiras que o Acácio programou a viagem com antecedência, preparando a gaiola e a comida dos pombos, os suplementos alimentares, tudo, e nem se esqueceu de polir muito bem a traseira do seu velho Corsa. Diz ele que esse pormenor nunca lhe passa ao lado, e justifica peremptório, de indicador no ar
— Quero que esses melros modernaços que conduzem mercedes e bêémes me vejam bem na estrada e se deixem de flostrias.
Isto para dizer: infelizmente, só quando o meu amigo e a mulher chegaram ao local da largada dos pombos, e ao retirar a gaiola do banco de trás do carro, é que ele verificou desolado que deixara em casa o casal de pombos com o qual se propusera concorrer. O Acácio lamentou depois – e o caso não era para menos – não ter estranhado o silêncio na gaiola, mas a Justina não lhe dera hipótese, pois estava com a corda toda e não se calara durante a jornada. A bem dizer, foi como se a gaiola tivesse viajado dentro dos pombos e não os pombos dentro da gaiola. Ora, haja alguém que me convença de que estes esquecimentos não são coisas próprias da nossa idade.
Mas eu estou preocupado com o Acácio, e não é porque está esquecido ou porque o Virgílio me avisou
— Põe-te a pau que o Acácio anda a armar-se em parvo
não senhor. Eu estou preocupado, porque ultimamente o Acácio não tem aparecido na Casa do Benfica, onde, é engraçado, o meu amigo faz questão de se apresentar aos domingos vestido como quem vai à madrinha, muito catita no seu fato às riscas, gravata dos casamentos, boné de pala na cabeça e sapato engraxado.
A Casa do Benfica é o local onde nos reunimos às quartas-feiras e fins-de-semana com outros reformados para uns jogos de sueca ou dominó. Vemos o futebol na TV, conversamos e bebemos uns cafés ou umas minis. A empregada é a Cátia, uma algarvia gorducha e pestanuda, de Portimão, que tinha um salão de cabeleireiro lá e é agora a namorada do Beto, um rapaz aqui do Bairro. O Beto é empregado numa pet shop do Retail Park de Taveiro e faz uns biscates em canalização. É um matulão moreno e simpático, com o olho direito desviado e o outro muito fixo na gente, e que faz horas e horas de musculação num ginásio da Baixa, segundo dizem, para esquecer o olho torto. Por portas travessas, o Acácio conseguiu arranjar este part-time à Cátia, aqui, na Casa do Benfica, onde ela nos atende, sempre sorridente, no seu falar cantado, servindo bicas, meias de leite e canapés de figo, a receita da avó que ela própria faz na copa.
É muito prestável a Cátia. Tanto assim que, numa dessas quartas-feiras, dei com ela a colocar umas gotas no ouvido surdo do Acácio. Ele estava esbarrondado numa cadeira, com a orelha ao dispor da Cátia; e ela, derrubada sobre ele, segurava com uma mão o frasco a pingar-lhe gotas no ouvido e com a outra afundava-lhe a cabeça na vastidão do peito, já se sabe, preocupadíssima com a pontaria no orifício e poder desperdiçar o líquido do frasco, que é bastante caro. Com a bochecha direita cingida pelo gancho do cotovelo da Cátia, ouvi o meu amigo invocar o padroeiro das aves
— Ai S. Francisco de Assis, ai S. Francisco de Assis
num murmurejo estremecido, derivado, pois claro, às gotas frias que lhe caíam na orelha. Eu entendi perfeitamente o ataranto do Acácio com aquela sua postura corporal tão perturbadora. E naquela aflição, certamente por recear desabar da cadeira, o Acácio esbracejava à toa, acabando por deter-se, por mero acaso, com uma mão arrimada à nádega da Cátia. Não achei mal nenhum nisto, bem pelo contrário: fiquei foi assustado por ter visto o meu amigo correr um perigo tão iminente. Mas, logo que ficámos sós, o Acácio confirmou
— É muito prestável a Cátia
e eu fiquei descansadíssimo. Acrescentou, depois, que, dias antes, a Cátia lhe pedira trinta euros para comprar uns livros escolares para o Bruno, o filho de oito anos; ele não tinha destrocado, mas, lá está, derivado ao seu coração de ouro, foi pedi-los emprestados ao Virgílio, de quem também é amigo, e logo lhos entregou dentro de um envelope. O Acácio não teve coragem de negar-lhe o pedido, essa é que é essa. E não teve, porque, confessou aniquilado, quando a Cátia levantou a t-shirt de mansinho, para guardar o envelope, viu-a abrir a alma ao assoprar-lhe enlevada, com uma aguadilhazita a bailar-lhe nos olhos
— Ó senhor Acácio, vai ver que não se vai arrepender, olhe o que eu lhe digo
e na minha ideia eu acho que o meu amigo fez muitíssimo bem. Homessa, então o menino não tem o mesmo direito dos outros de ter livros para a escola?
Mas só na tal manhã, quando o Virgílio estava então pasmado em frente ao homem-estátua, e lhe deu para me avisar
— Põe-te a pau que o Acácio anda a armar-se em parvo
é que me contou que, mais tarde, falara ao Acácio desse empréstimo para os livros e também de outros dois, em que lhe passara para a palma vinte e cinco euros, já não se lembrava do pretexto, e que ele se fez desentendido, a armar-se em parvo. Por sinal, só no dia seguinte me ocorreu que, não há muito tempo, em conversa com o senhor Armando do minimercado e também com o senhor Licínio da drogaria, ambos desabafaram e contaram episódios semelhantes sobre o Acácio, mas ninguém me tira da cabeça que aquilo é só paleio. O senhor Armando revelou que, inexplicavelmente, o Acácio agora só compra frutas tropicais de avião e gengibre; e o senhor Licínio, que ele aparece na drogaria todo cheio de nove horas, a rescender a erva-doce, a comprar desodorizantes caros, cremes para as mãos e sprays para o mau hálito. Ambos repararam que o Acácio anda rejuvenescido, donairoso e alegrote, e até notaram um certo requinte na voz, mas sobre o pagamento das compras, moita-carrasco: desvia as conversas, a armar-se em parvo.
O meu pai já me dizia que um homem sem amigos não é ninguém. Eu sou amigo do Acácio e parece-me impossível que ele se arme em parvo quando lhe falam nas dívidas. Quanto a mim, aposto o que quiserem em como ele me pagará os cento e tal euros que lhe emprestei desde que a Cátia apareceu a fazer aquele part-time na Casa do Benfica. Isto acontecer só agora não é outra coisa senão uma coincidência, até porque ele afiança que a Cátia não está nas lonas. Como lhe é muito chegado, o Acácio faz-lhe o IRS e sabe que ela tem mais dois part-time: faz umas unhas, de manhã, num hipermercado; e, aos fins-de-semana, à noite, tem outro, numa danceteria. Por conseguinte, ele pensa que depressa a Cátia vai, com toda a certeza, acertar as contas dos livros do Bruno com ele, e que o assunto ficará depois completamente resolvido.
Eu acredito no Acácio, insisto. Mas compreendi perfeitamente quando ele me pediu, um dia destes
— Olha que tu não digas nada disto à Justina
porque eu alguma vez dizia alguma coisa à Justina? Eu dizia, o tanas, não me atrevo. A mulher dele é uma joia de pessoa, mas é doente dos nervos e tem tensões altas. O pior é que a Justina é muito desconfiada, e se eu lhe dissesse alguma coisa, até lhe podia dar um ataque, ou assim. Deus me livre! É que há coisa de quinze dias, ela deu com o Acácio, perto da meia-noite, a mandar chi-corações à Cátia, no Facebook. Surdiu-lhe de repente em frente à mesa da cozinha, de rolos no cabelo e um espera-maridos sobre a camisa de dormir, deitou o olho, e trucla!, com um golpe certeiro fechou-lhe o computador com violência. Com um suspiro pungente, o Acácio confidenciou-me que a Justina ficou furiosa, com as cordoveias a incharem-se-lhe no pescoço e com uns olhos deste tamanho, e o esfuzilou com um
— Ai de ti se te vejo a mandar mais chi-corações a essa gaja
como se quisesse trespassá-lo com o olhar. E, como vingança, esteve uma semana inteirinha sem cozinhar para ele. O meu amigo bem se desunhou em jurar-lhe que não queria mandar chi-corações à Cátia, mas que, às tantas, os dedos deslizaram no teclado, vá lá ele entender como; o que ele tinha, sim, era a intenção de apenas enviar uma mensagenzita de nada, um simples olá, ou um daqueles inofensivos bonecos que as pessoas costumam trocar umas com as outras. Nunca ouvira a mulher dizer que a internet engana muitas vezes os utilizadores? E não sabia ela que ele agora queria era sopas e descanso? Mas, queixou-se o Acácio, a Justina não fez caso, encolheu os ombros e apenas lhe atirou um desdenhoso
— Vai bugiar
e voltou-lhe as costas.
De modo que essa funesta semana passou-a ele, coitado do Acácio, sozinho de noite, e de dia na Casa do Benfica, a engolir mágoas e canapés de figo.
Muito honestamente, para mim está tudo clarinho como água: eu não tenho isto que me leve a duvidar do Acácio. E sempre que o Virgílio vem com aquela arenga
— Põe-te a pau que o Acácio anda a armar-se em parvo
palavra de honra, eu acho que isso não faz o mínimo sentido.

Respeitando a voz e a intenção do autor, este texto é publicado na sua versão original, sem edição e revisão.

O texto segue escrito de acordo com a ortografia antiga.

Avatar de Manuel Ferreira da Costa

Uma resposta a “A armar-se em parvo”

  1. Avatar de Maria Simão
    Maria Simão

    E ainda acredita no Acácio?

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