A professora Carla ensinava na escola da aldeia onde nascera. Os alunos gostavam da docente do primeiro ciclo, não só porque ela lhes ensinara as primeiros letras e números, como porque os levava aos museus, espetáculos de teatro ou dança, ao circo e até ao jardim zoológico.
Conhecia cada aluno — e família —, assim como as dificuldades por que passavam. Quase todos tinham pouca instrução; eram trabalhadores rurais, ou empregados fabris nas empresas das redondezas. Trabalhavam arduamente até o sol se pôr, sem tempo para passeios. A professora lia naquelas vidas a dos pais e a de si própria.
As crianças que a acompanhavam gostavam de ouvir as histórias dos livros e as memórias que ela reanimava.
Como todas as crianças, a Carlita sonhava ser hospedeira ou paraquedista, trapezista ou bailarina. Na aldeia, ainda criança, assistia, com as amigas, às danças dos ranchos ou, nos dias de festa, aos conjuntos musicais. Num desses arraiais, deu os primeiros passos de dança com o pai. Não havia música em que ela não se embalasse, batendo palmas com a genuína alegria de uma menina.
Quando abria a caixinha de música pousada sobre o móvel de gavetões grandes no quarto dos pais, olhava, com admiração, para a bailarina que rodopiava num pé só, em cima de um pequeno espelho redondo. Os olhos brilhavam quando, ao sabor da dança, via a bonequinha de saia rosada, bem rodada, com uma coroa de princesa, e um braço por cima da cabeça e o outro em frente à cintura delicada. E, quando a corda terminava, a Carlita começava a rodar… a rodar… a rodar…
Os pais empregaram-se numa vila próxima da aldeia, onde a Carlita iniciara o percurso escolar. No livro de leitura constava o poema favorito:
A Bailarina
A linda bailarina,
Roda, roda, sem parar;
Vive no canto do palco
E adora rodopiar.
Na cabeça, um laçarote,
No corpo, a saia rodada,
E em pontas vai girando
Ao som de cada balada.
Uma pequena ilustração encanta a Carlita; assim como a menina dos pés de pontinha, a da imagem também tinha uma saia rosada, muito armada, umas meias-calças, uns sapatinhos cor-de-rosa e, bem coladinha ao corpo esbelto, uma camisola com uma suave cor de pérola. O cabelo estava apanhado num coque igual ao da avó Lina, já muito velhinha, mas aqui enfeitado com um laçarote da cor da saia. Ela imaginava-a a esvoaçar enquanto dançava ao som se uma música serena.
No pátio da nova casa, na vila, para onde se mudaram depois, devido a uma nova proposta de trabalho, a Carlita continuava a girar em bicos de pés e adorava ver a saia rodada a levantar-se, sonhando ser uma verdadeira bailarina.
Certo dia, pediu ao pai que lhe comprasse uma saia e uns sapatos iguais aos da boneca. Ele nem sequer a ouvira. Carlita chorou: ao menos se a levasse a um bailado real.
A nova professora da Carlita disse aos alunos que haveria um espetáculo de bailarinos, vindos de Lisboa, na cidade mais próxima.
A Carlita foi para casa radiante. Esperou ansiosamente pelo pai que trabalhava numa mercearia do outro lado da rua. Sentou-se no degrau da entrada de casa e, assim que o avistou, correu com o panfleto na mão que a professora lhe dera.
— Paizinho… paizinho… olhe aqui… leia… Eu queria tanto ir… — suplicou com a voz melosa, depois de explicar sobre o que tinha ouvido e aprendido com muita atenção na aula.
— Não podes ir!
— Porquê? A Carmo e a Guida vão… Ó paizinho…
— Porque não. — Respondeu o pai veemente.
A menina entrou de rompante em casa e correu para o quarto, deitou-se na cama e soluçou. As lágrimas corriam. Porque não, não é resposta — pensava ela — porque não, não é resposta. De nada lhe servia; o pai nunca se enternecia. Entristeceu, trancando-se no quarto: «A minha vida é tão triste. É madrasta. Pior do que as das histórias da avó Lina. Eu gosto muito da avó Lina, mas no outro dia ouvi uma vizinha a chamar-lhe com outro nome… Já não me lembro… Mas é um nome esquisito… Mas todos os meus primos também dizem que é a avó Lina. Oh, não interessa! O meu pai não gosta de mim, só gosta do meu irmão porque é mais pequeno.»
Uma borboleta pousou sobre o ombro franzino: «Veio visitar-me e está a olhar para mim.»
— Olá, amiga, que notícias trazes? Tu sabes dançar? Vais ao bailado, no domingo? És livre e podes ir… Se eu fosse uma borboleta…
Olha, mas, eu também estou a voar. E daqui de cima vejo tudo. As minhas asas coloridas levam-me para onde eu quero. Salto de flor em flor. Iupi! Posso ir ao bailado!
Acrescentou:
— Amigas borboletas, não digam ao meu pai.
Ops! Passou por aqui uma abelha, até me assustei. Quer brincar comigo.
Levantou-se com ânimo:
— Olá, abelha, vamos voar juntas?
Oh, não! Ela vai embora. Diz que tem muito trabalho para fazer e a rainha está à espera na colmeia.
— Carlita vem jantar! — Ela acordara estremunhada. Junto à mesa, olhara para o pai de relance, ressentida.
Sentou-se à mesa, no mesmo lugar de todos os outros dias.
Na panela, estava um frango guisado cortado em pedacitos, para render mais, e batatas cultivadas pelos pais. Comia produtos da horta, apenas; as despesas eram muitas e o dinheiro não chegava.
Nos sonhos de Carlita mantinha-se a esperança. Num dia quente de verão, vestiu a saia mais rodada e calçou as sandálias de plástico.
Era melhor do que andar descalça, como o pai, quando tinha a mesma idade. Ele contava que quando fora fazer o exame de admissão da quarta classe, usava uns sapatos que o avô da Carlita encomendara ao sapateiro da vila, que só cobriam a parte de cima do pé, porque não tinham sola; eram amarrados com uns cordões. Ela tinha pena dele. Coitado — pensava —o avô António era mesmo pobrezito. Eu tenho sorte. Nós somos pobres, mas o meu pai não me deixa andar descalça.
Então, atou o cabelo que, por acaso não estava como o da bailarina do seu livro de leitura e, muito menos como o da sua avó Lina — Virgolina, no registo —, e colocou uma flor que apanhou no quintal.
Depois, foi para a frente do espelho do seu quarto e bailou ao som de uma música imaginária, em bicos de pé, rodopiando por toda a casa até cair no chão.
— Como é que as bailarinas de verdade conseguem andar à roda tanto tempo e continuam a dançar sem cair? — exclamou, depois de se levantar, e mantendo a postura e a leveza de uma princesa.
Na entrada das carrinhas do armazém, mesmo ao lado de casa, viu no chão, encostada à parede, uma tábua robusta com um prego enorme virado para cima. Apoiou a mão na parede. Levantou o pé direito com a frágil sandália azul, colocou-o em cima do prego, deu balanço com a perna esquerda, como a bailarina da caixa de música da mãe.
Ouviu-se um grito alucinante que todos estranharam na rua.
Os empregados e o Sr. Álvaro Lopes — o dono de algumas das lojas da rua, amigo e patrão do pai da Carlita, correram, deitando as mãos à cabeça:
— Ai, Carlita, o que te aconteceu? — tirou-lhe a sandália ensanguentada, removeu cuidadosamente o prego espetado, pegou-a ao colo e correu para o escritório.
O pai, que trabalhava na mercearia em frente, chegou de imediato, pois o Sr. João correu a chamá-lo.
— Ó minha filha — disse, abraçando-a com ternura. Depois, contas-me o que te aconteceu.
Seguiram para o posto médico, rapidamente. Ela no colo do pai, branca como a cal da parede e assustada.
Depois do tratamento, da confirmação da vacina do tétano, que estava em dia, regressaram a casa.
— Filha, o que te passou pela cabeça para pores o pé em cima daquele prego?
— Eu só queria fingir que era uma bailarina – choramingou, com os olhos tristes e marejados.
Abraçou-a com força.
Quando a família foi ao batizado do filho do padrinho da Carlita, que vivia em Lisboa, o pai fez-lhe uma surpresa. Levou-a ao Teatro de São Carlos para assistir a um espetáculo de bailado: O Lago dos Cisnes.
A filha ficara tão feliz, por poder entrar naquela sala deslumbrante, onde ela nunca pensara ir, sentindo-se devanear.
Adulta, sentada na secretária junto ao quadro preto, feito de pedra de ardósia, pedia aos alunos para escreverem sobre uma bailarina que nunca rodopiou.
Uma resposta a “Bailando sobre o prego”
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Gostei muito deste conto! ❤️ Tem uma escrita muito envolvente e uma história que nos consegue transportar para dentro daquele universo de uma forma muito natural. Nota-se o carinho colocados em cada detalhe, e foi realmente um prazer lê-lo. Parabéns pelo trabalho💪👏


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